Há década e meia, o Nissan Leaf foi pioneiro. Um dos primeiros elétricos acessíveis a chegar ao grande público, conquistou quase 700 mil unidades em todo o mundo. Mas o mercado não perdoa a estagnação, e o formato hatchback deixou de estar na moda. O que fez a Nissan abordar a terceira geração do compacto de forma arrojada, transformando-o num crossover mais curto que o modelo que substitui, mas mais espaçoso e com a maturidade técnica que lhe faltava.

Testámos a versão Bateria Standard de 52kWh com 177 CV, para perceber se o "novo-velho" Leaf tem argumentos para continuar na ribalta.

Mais pequeno por fora, maior por dentro

Contrariando todas as tendências do setor, este Leaf III encolheu na mudança de geração. Com 4,35 metros, são menos 14 cm que o modelo que sai de cena. Mas os benefícios da nova plataforma CMF-EV (partilhada com o Ariya, Megane e Scenic E-Tech) permitem apresentar um habitáculo mais espaçoso em todas as direções. 

A habitabilidade nos lugares dianteiros é reforçada pelo facto de não existir qualquer barreira física entre o banco do condutor e o do passageiro, uma vez que o apoio de braços é pequeno e o porta-copos central fica a uma altura muito baixa. Isto, combinado com o aumento de 2 centímetros na largura, traduz-se numa maior sensação de amplitude

Atrás, espaço amplo para as pernas e para a cabeça, apesar da queda do tejadilho, que não chega a comprometer a habitabilidade. A segunda fila dispõe de um pequeno apoio de braços central integrado no banco central, bem como de duas portas USB-C para poder carregar o telemóvel. A primeira fila também tem um carregador por indução de 15 quilowatts para telemóvel e portas USB-C para uma carregamento mais convencional.

A bagageira também cresceu ligeiros 15 litros, fixando-se agora nos generosos 437 litros. E neste compartimento realçar um pormenor inteligente: o arrumo lateral esquerdo e o vão sob a plataforma de carga, perfeitos para guardar os cabos sem atrapalhar a mala principal.

A bordo, o “casamento” do físico com o digital

Assim que se entra no Leaf, a sensação de qualidade é imediata, graças à mistura de materiais que vão das fibras de inspiração lounge ao couro sintético, passando por plásticos rígidos com bons acabamentos. O único aspeto menos positivo é, de resto, a dureza do plástico usado no painel de botões da consola central, que acaba por ter uma presença demasiado evidente num habitáculo que, no geral, é bastante acolhedor e confortável.

O volante, com a base achatada, incorpora botões físicos de tamanho generoso que tornam a operação mais simples em andamento. 

O painel de bordo é agora dominado por dois generosos ecrãs de 14,3 polegadas, mas a Nissan teve o bom senso de não enterrar tudo nos menus. Existem comandos táteis para a climatização, botões físicos para funções essenciais e até um rotativo para o volume. É um equilíbrio raro hoje em dia, e agradece-se.

O grande destaque, no entanto, vai para o sistema de infoentretenimento baseado no Google Automotive. Ter o Google Maps nativamente integrado não é apenas um luxo visual; é uma ferramenta funcional. Ao planear a viagem no carro, o sistema de pré-condicionamento da bateria sabe automaticamente quando e onde vão carregar, preparando a bateria para receber a corrente à temperatura ideal. Sem esquecer a integração sem fios para Android Auto e Apple CarPlay. 

O acabamento Advance assume uma posição intermédia na gama, distinguindo-se do acesso Engage e oferecendo um salto significativo em tecnologia e conforto. Os seus principais destaques, para além dos dois ecrãs panorâmicos de 14,3" (em vez dos 12,3" do Engage), são ainda os bancos dianteiros aquecidos e estofos em couro sintético, o tejadilho panorâmico escurecido, o head-up display e o sistema de som Bose topo de gama.

Na segurança, destaque para o sistema ProPILOT Assist com Navi-Link, que integra cruise control inteligente com função stop & go, reconhecimento de sinais de trânsito com ajuste de velocidade, o monitor de Visão 360° 3D com 8 pontos e capot invisível para ajudar nas manobras.

Baterias com a revolução técnica que se exigia 

Durante anos, o Leaf contou com o arrefecimento passivo das baterias, mas esta nova geração estreia um bem mais sofisticado sistema ativo de gestão térmica com arrefecimento líquido. É esta a revolução mais bem vinda. Ao mesmo tempo que a entrada CHAdeMO foi finalmente substituída pela CCS, permitindo carregamentos rápidos em corrente contínua até 105 kW nesta versão de 52 kWh (150 kW na versão com bateria maior de 72 kWh). Ainda não é a velocidade de um Tesla, mas garante carregamentos consistentes sem estrangular a potência por excesso de calor. E claro, mantém a prática função V2L para alimentar equipamentos exteriores.

Ágil, confortável e finalmente mais eficiente

Com 177 cv de potência e quase duas toneladas de peso, o Leaf com Bateria Standart de 52 kWh não é propriamente um foguete, mas a entrega de binário instantâneo faz dele um "animal" de cidade. Os arranques são vivos q.b. e a agilidade para evoluir no trânsito também satisfaz. Em autoestrada, nota-se que o fôlego não é tão generoso como na versão acima de 218 CV, mas cumpre sem se sentir esforçado.

A mudança para a plataforma CMF-EV trouxe uma evolução mecânica de peso: motor, inversor e redutor estão agora agrupados num bloco compacto, o que traz vantagens evidentes em termos de ocupação espacial e de massa. Além disso, o sistema de ar condicionado passou a estar alojado sob o capot, em vez de ocupar espaço no habitáculo, ao mesmo tempo que a barra de torção traseira deu lugar a um esquema multibraços. Já a rigidez estrutural aumentou em 66 por cento. O objetivo dos engenheiros da Nissan foi que a dinâmica do Leaf fosse equiparável à do Qashqai, que é apenas 1 centímetro mais comprido. O resultado é um carro muito equilibrado e com bom desempenho em qualquer tipo de situação.

A direção está muito mais precisa e a suspensão consegue engolir as irregularidades do piso com requinte, mantendo a carroçaria controlada nas curvas e nas mudanças de direção mais bruscas. Comparado com o antecessor, o novo Leaf é um carro muito mais ágil e mais confortável.

Por falar em conforto, aplausos para os progressos realizados em matéria de isolamento acústico e para os bancos dianteiros com bom apoio lateral e excelente ergonomia. 

Consumos e autonomia: a prova dos nove

As patilhas no volante permitem gerir a regeneração em três níveis, e a função One Pedal (condução com apenas um pedal) permite levantar o pé do acelerador e ter o carro a imobilizar-se de forma natural, sem solavancos. São recursos fundamentais para realizar uma condução eficiente e controlar o consumo. 

A Nissan anuncia para esta versão do Leaf uma média combinada WLTP de apenas 13,8 kWh/100 km. No nosso teste, em ritmos mistos, andámos sempre à volta dos 15 kWh/100 km, um valor ainda assim muito competitivo, e que coloca o novo SUV japonês ao nível dos melhores do segmento. A autonomia anunciada para esta versão de 52 kWh é de 436 km; na prática, conte com pouco mais de 350 km, o que é perfeitamente aceitável para o dia-a-dia e viagens médias.

Preço e equipamento em linha com a concorrência

O preço arranca nos 39.900 euros para esta versão de acesso, com três anos de manutenção gratuita incluída. É mais caro que um MG4 ou um BYD Atto2, mas alinha-se face ao Kia EV3, Volvo EX30 e Volkswagen ID.3.

É justo para um Leaf que se afirmar como um familiar crossover tecnológico e competente. A Nissan acertou em cheio ao apostar numa plataforma moderna que oferece dinâmica, espaço e conforto. 

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