28 abril 2026

Menos emissões por carro, mais carros na estrada: o paradoxo da Polestar

Novo Polestar 3 jantes

Num setor automóvel cada vez mais pressionado por metas climáticas, volatilidade económica e decisões políticas inconsistentes, a Polestar apresenta um caso que merece análise: é possível crescer sem agravar o impacto ambiental?

Segundo o mais recente Relatório de Sustentabilidade da marca sueca, referente a 2025, a empresa conseguiu reduzir em 31% as emissões de gases com efeito de estufa por automóvel vendido desde 2020. No mesmo período, registou uma expansão relevante: ultrapassou as 60 mil unidades vendidas anualmente, entrou em novos mercados e alargou a gama para quatro modelos.

À primeira vista, os números sugerem um desacoplamento entre crescimento e emissões, algo que a indústria automóvel tem dificuldade em demonstrar de forma consistente. No entanto, importa perceber o que está por detrás desta evolução.

O que explica a redução

A descida nas emissões por veículo resulta sobretudo de três fatores: maior incorporação de energias renováveis na produção, utilização de materiais com menor intensidade carbónica e alterações no mix de produtos. Neste último ponto, destaca-se o peso crescente do Polestar 4, atualmente o modelo com menor pegada de carbono da marca.

Há também um fator externo relevante: a progressiva descarbonização da eletricidade nos principais mercados europeus, que contribui para reduzir as emissões na fase de utilização dos veículos elétricos. Ou seja, parte do mérito não é exclusivamente industrial, mas também sistémico.

Ainda assim, a Polestar mantém-se alinhada (ou ligeiramente abaixo) da sua trajetória para cumprir o objetivo de neutralidade climática até 2040.

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Um discurso em contraciclo

Numa altura em que vários fabricantes estão a rever estratégias e a prolongar investimentos em motores de combustão ou soluções híbridas, a Polestar mantém um posicionamento mais rígido: eletrificação total e foco exclusivo em veículos 100% elétricos.

O CEO, Michael Lohscheller, resume essa visão de forma direta: se as emissões não diminuem durante o crescimento, trata-se de uma escolha estratégica. A afirmação pode soar simplista, mas reflete uma crítica implícita a uma indústria que, apesar dos compromissos públicos, continua dependente de tecnologias convencionais.

Por outro lado, o argumento económico também ganha peso: com a volatilidade dos preços dos combustíveis fósseis, a proposta de valor dos elétricos começa a assentar não apenas na sustentabilidade, mas também na previsibilidade de custos.

O desafio ainda está longe de resolvido

Apesar dos progressos, a redução de emissões por veículo não significa automaticamente uma diminuição absoluta do impacto ambiental total, especialmente quando o volume de vendas cresce. Esta é uma das críticas recorrentes ao setor: eficiência não é o mesmo que redução global.

É neste contexto que surge o projeto Polestar 0, talvez a iniciativa mais ambiciosa da marca. O objetivo é desenvolver um automóvel com emissões líquidas zero ao longo de todo o ciclo de vida, sem recorrer a compensações de carbono, uma meta inicialmente apontada para 2030, mas entretanto adiada para 2035.

O adiamento reflete a complexidade do desafio, particularmente ao nível dos materiais e processos industriais. A criação da Mission 0 House, um centro de investigação colaborativa na Suécia, mostra que a empresa está a apostar numa abordagem de longo prazo, envolvendo universidades e parceiros industriais.

Entre os desenvolvimentos em curso estão o uso de aço de baixas emissões, alternativas têxteis de base biológica e tecnologias capazes de reutilizar CO? como matéria-prima.

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Entre ambição e realidade

O caso da Polestar ilustra bem a tensão atual na indústria automóvel: por um lado, a necessidade de crescimento e competitividade; por outro, a urgência de reduzir o impacto ambiental de forma mensurável.

Os resultados apresentados são relevantes e colocam pressão sobre outros fabricantes. No entanto, permanecem questões estruturais: até que ponto estas melhorias são escaláveis? E será possível atingir neutralidade climática sem transformações profundas em toda a cadeia de valor global?

Para já, a Polestar posiciona-se como um dos exemplos mais consistentes dentro do segmento elétrico. Mas, como em toda a indústria, será a execução ao longo da próxima década, e não apenas os relatórios, a determinar o verdadeiro impacto.

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