Trinta e cinco anos de história e cerca de 17 milhões de unidades depois, o Renault Clio continua a ser um dos modelos mais importantes da marca francesa. Seis meses após a chegada da sexta geração, a Renault volta a mexer na gama e acrescenta uma motorização que nem sempre está no centro da conversa, mas que em Portugal tem vindo a ganhar cada vez mais peso: o GPL.

Com o preço dos combustíveis a pesar cada vez mais no orçamento das famílias, esta pode ser uma das versões mais relevantes do novo Clio, e que talvez faça mais sentido para o mercado português. 

Viajamos até Madrid para conhecer em primeira mão o Clio Eco-G, tecnologia que combina gasolina e GPL e que anuncia uma autonomia total de 1450 quilómetros.

O Clio sempre teve uma fórmula muito clara. Um carro compacto, fácil de usar na cidade, económico, simples de estacionar e suficientemente versátil para servir tanto como primeiro carro, como carro principal de muitas famílias. Nesta nova geração, a Renault tentou manter essa base, mas acrescentou-lhe uma imagem mais forte, mais tecnologia, mais qualidade interior e uma gama de motores onde o Eco-G passa a ter um papel central.

E esse contexto é importante. Em Portugal, os segmentos B e C representam mais de 70% do mercado nacional. São os segmentos onde se decide grande parte das vendas, e também onde o preço de compra e o custo de utilização têm mais peso na decisão. Ao mesmo tempo, o GPL deixou de ser uma solução marginal. O mercado nacional de automóveis a GPL cresceu 272% em quatro anos, ultrapassou as 20 mil unidades vendidas em 2025 e já representa 7,9% de quota. Grande parte desse crescimento tem sido puxado por Renault e Dacia.

A explicação está sobretudo nas contas. O GPL custa cerca de 40% menos do que a gasolina, mesmo que o consumo seja aproximadamente 25% superior. A Renault fala em poupanças superiores a 550 euros por ano num uso quotidiano normal para uma família portuguesa. Além disso, o GPL emite menos CO2 do que um motor equivalente a gasolina, reduz muito as emissões de NOx e permite uma utilização normal, sem restrições de circulação ou estacionamento, porque neste caso estamos a falar de uma solução integrada de fábrica.

No novo Clio, a mudança começa logo pelo desenho. Esta sexta geração cresceu em todas as direções: mais 67 milímetros em comprimento, passando para 4,12 metros, mais 39 milímetros em largura e mais 11 milímetros em altura. Continua a ser um utilitário, mas tem uma presença mais adulta e uma postura mais assente na estrada.

A frente é a zona onde a diferença face ao anterior Clio é mais evidente. Os faróis são 100% LED e a assinatura luminosa tem uma forma de seta, ou de meio losango, que remete diretamente para o emblema da Renault. A grelha tem um padrão de diamante e dá ao carro uma identidade muito mais marcada. É uma frente menos consensual, mas também menos anónima.

Na lateral, os puxadores traseiros escondidos nos pilares C mantêm uma solução que já conhecíamos, mas aqui o conjunto parece mais trabalhado. A linha de tejadilho desce ligeiramente até ao spoiler traseiro e a Renault diz que este trabalho também ajudou na aerodinâmica, com um Cx de 0,30. Atrás, as óticas hexagonais estão divididas entre a carroçaria e o portão da bagageira. A marca evitou a solução da barra luminosa contínua, que se tornou quase obrigatória em muitos modelos recentes, e preferiu dar ao Clio uma traseira com mais personalidade.

Abrir a porta é perceber que a subida de gama não é conversa de marketing. O ambiente é limpo, moderno e centrado no condutor. O duplo ecrã de 10,1 polegadas em forma de “V” domina o quadro de bordo, trazendo o sistema OpenR Link com Google integrado, ou seja, aplicações e serviços disponíveis sem depender sempre do smartphone. Há também atualizações remotas, o assistente de voz “Hey Renault”, que aprende hábitos do condutor, e replicação sem fios de smartphones.

A qualidade dos materiais deu um salto evidente. Na versão topo Esprit Alpine, o Alcantara e os acabamentos metálicos dão ao habitáculo um ambiente mais cuidado e com alguma intenção desportiva. Mas a diferença nota-se sobretudo nos detalhes: a iluminação ambiente personalizável em 48 cores, o compartimento central macio que lembra a tampa de um tablet, e o espaço adicional conquistado para os passageiros traseiros. 

A bagageira chega aos 391 litros nas versões convencionais e está mais acessível. Na versão Eco-G, a capacidade fica nos 260 litros, devido à integração do sistema GPL, mas não há aquela sensação de adaptação improvisada que durante muito tempo esteve associada a algumas conversões a gás.

AO VOLANTE

A grande novidade mecânica é o novo motor Eco-G. É um 1.2 turbo de três cilindros, preparado para funcionar a gasolina e GPL, com 120 cv e 200 Nm de binário. Face ao anterior motor a GPL, há um ganho de 20 cv e 30 Nm, o que se nota sobretudo na disponibilidade em baixas rotações e nas recuperações.

No Clio, este motor está associado a uma caixa automática EDC de dupla embraiagem. É um ponto importante, porque continua a ser pouco comum encontrar uma proposta GPL com caixa automática neste segmento. A experiência de condução fica mais suave e mais confortável em cidade, sem retirar ao Clio a agilidade que sempre fez parte do seu carácter.

A Renault anuncia 9,8 segundos dos 0 aos 100 km/h, um consumo de 6,5 l/100 km a GPL e 5,4 l/100 km a gasolina. As emissões começam nos 106 g/km de CO2 quando funciona a GPL. O depósito de gasolina tem 39 litros e o de GPL tem 50 litros, permitindo uma autonomia combinada de até 1.450 km. Quando o GPL acaba, o sistema passa automaticamente para gasolina, sem intervenção do condutor. Também é possível escolher manualmente o combustível, mas no uso normal o carro gere essa transição sozinho, fazendo sempre o arranque a gasolina, até o motor atingir a temperatura ideal de funcionamento, trocando em seguida para GPL, por estar otimizado para funcionar com este tipo de combustível. 

Em condução, o Eco-G não tenta ser uma versão desportiva do Clio. O que se sente é um utilitário mais disponível, mais fácil de levar no dia a dia e com um motor que responde melhor do que os anteriores GPL da marca, e também que a versão TCe, graças não só ao incremento de 5cv de potência mas sobretudo da caixa automática, que ajuda muito nesse resultado. Para quem faz cidade, trajetos suburbanos e alguma estrada, esta combinação faz sentido porque junta conforto, autonomia e um custo por quilómetro mais baixo.

A gama Clio mantém outras opções. Há o TCe a gasolina de 115 cv, com caixa manual ou automática, e há também o full hybrid E-Tech de 160 cv. Mas em Portugal, olhando para preço, fiscalidade e utilização real, o Eco-G tem argumentos fortes. Não será a versão mais sofisticada, mas pode ser uma das mais equilibradas.

Symbioz é a opção mais familiar

Mas o Clio não foi a única novidade a GPL apresentada pela Renault em Madrid. A mesma tecnologia chega também ao Symbioz, que traz esta solução para o segmento C e para um cliente com necessidades diferentes.

O Symbioz é uma proposta mais familiar. Tem mais espaço, mais bagageira e uma posição de condução mais elevada. Na gama, existem três motorizações: o full hybrid 1.8 de 160 cv, o mild hybrid de 140 cv e este Eco-G de 120 cv. A diferença é que a versão Eco-G passa a ser a mais acessível da gama.

O motor é o mesmo 1.2 turbo de três cilindros, com 120 cv e 200 Nm, mas no Symbioz está associado a uma caixa manual de seis velocidades. A escolha tem uma explicação simples: manter o preço mais contido. O resultado é uma versão muito racional, pensada para quem quer espaço e baixos custos de utilização sem subir para os valores das versões híbridas.

Em andamento, o Symbioz Eco-G é mais tranquilo do que o Clio. A carroçaria é maior, o posicionamento é mais familiar e os 12 segundos dos 0 aos 100 km/h mostram bem que a prioridade não está na performance. O motor cumpre, responde de forma suficiente para o uso normal e faz mais sentido numa condução fluida do que numa utilização apressada.

O consumo anunciado a GPL é de 7,1 l/100 km, enquanto a gasolina fica nos 5,9 l/100 km. As emissões começam nos 116 g/km de CO2 a GPL. Com um depósito de gasolina de 48 litros e um depósito de GPL de 50 litros, a autonomia combinada pode chegar aos 1.500 km. Para famílias, para empresas ou para quem faz muitos quilómetros, este é provavelmente o número mais importante do Symbioz Eco-G.

O lado prático também pesa bastante. A bagageira chega aos 610 litros e o banco traseiro é regulável em profundidade, permitindo escolher entre mais espaço para passageiros ou mais volume de carga. A integração do GPL não compromete de forma relevante a utilização da mala, o que é essencial num carro com este posicionamento.

O Symbioz pode ainda contar com equipamento como o tejadilho Solarbay, o sistema OpenR Link com Google integrado, câmaras 360º, cruise control adaptativo e até 29 sistemas de ajuda à condução. Ou seja, a versão Eco-G é a mais racional da gama, mas não fica reduzida a uma proposta básica.

Em Portugal, o GPL também tem vantagens importantes para empresas. Há 50% de dedução do IVA na compra do automóvel e 50% de dedução nas despesas de abastecimento de GPL. Na tributação autónoma, os valores são de 8% para carros até 37.500 euros, 25% entre 37.500 e 45.000 euros, e 32% acima desse valor. Para frotas, estes números podem pesar tanto como o preço de tabela.

Preços em Portugal

No Clio, a gama começa nos 21.990 euros na versão TCe a gasolina. A versão Eco-G arranca nos 23.690 euros, cerca de 1.500 euros acima. A versão Techno, que deverá ser uma das mais equilibradas em preço e equipamento, custa 25.190 euros. O Esprit Alpine com motor 1.8 full hybrid chega aos 28.990 euros, um valor penalizado pela fiscalidade portuguesa, que continua a olhar muito para a cilindrada.

No Symbioz, a versão Evolution Eco-G começa nos 28.140 euros e passa a ser a mais barata da gama. A versão Techno acrescenta cerca de 2.000 euros. A motorização mild hybrid de 140 cv custa mais cerca de 2.500 euros do que a Eco-G. Já o full hybrid sobe para 38.340 euros, novamente muito condicionado pela fiscalidade associada ao motor 1.8.

A chegada a Portugal de ambos os modelos está prevista para o último trimestre do ano.

O que fica desta apresentação é uma aposta clara da Renault numa solução que continua a ter bastante lógica para o mercado português. O Clio Eco-G junta uma imagem muito mais moderna a um motor mais competente e a uma caixa automática que melhora claramente o uso diário. O Symbioz Eco-G aplica a mesma receita num formato mais familiar, com mais espaço, mais autonomia e um preço de entrada mais competitivo.

O GPL não tem o impacto mediático dos elétricos, nem a sofisticação dos híbridos completos. Mas responde de forma muito direta à pergunta que ainda pesa muito na escolha de um carro: quanto custa andar de carro todos os dias? E para quem não pode carregar em casa, não quer depender da rede pública ou não consegue fazer a ginástica financeira para um elétrico, o GPL continua a ser uma das opções mais racionais do mercado.

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