O Smart Concept #2 pode ser o renascimento do espírito ForTwo numa forma completamente nova. A marca germano-chinesa, controlada a partes iguais pela Mercedes-Benz e pelo grupo Geely, apresentou um concept car que aponta para um citadino eléctrico de dois lugares, reinterpretando o ícone urbano que definiu uma geração de condutores europeus. Eis tudo o que se sabe até agora.

Um nome histórico com uma nova identidade

O ForTwo foi, durante décadas, sinónimo de mobilidade urbana compacta. Lançado em 1998 sob a visão original de Nicolas Hayek, o co-fundador da Swatch, o pequeno biplaza tornou-se num símbolo das cidades europeias congestionadas. Quando a Smart abandonou a versão convencional do ForTwo em 2019 para apostar em eléctricos, muitos consideraram encerrado o capítulo do citadino de dois lugares.

O Concept #2 sugere que esse capítulo pode reabrir, mas com uma linguagem completamente diferente. A designação segue a numerologia adoptada pela nova Smart: o #1 foi o SUV compact, o #3 foi o coupé, o #5 o SUV de maior dimensão. O #2 posiciona-se como o modelo mais urbano e mais acessível da gama, ocupando o espaço deixado vago pelo ForTwo original.

Visualmente, o concept abandona a estética industrialista das gerações anteriores e adopta as linhas arredondadas e a iluminação assinada que caracterizam toda a família actual. A identidade é inequivocamente Smart, mas a escala é reinterpretada para o século XXI.

O que se sabe sobre as dimensões e o conceito de utilização

O Concept #2 foi apresentado como um veículo pensado para dois ocupantes em contexto urbano, retomando a filosofia fundadora da marca. No entanto, ao contrário do ForTwo original, cujas dimensões eram ditadas pela necessidade de estacionar perpendicularmente ao passeio, o novo conceito aponta para proporções ligeiramente mais generosas, compatíveis com as normas de segurança actuais e com a integração de baterias de tracção.

A marca não divulgou dimensões exactas para o modelo de produção, mas as imagens do concept sugerem um comprimento próximo dos 3,5 metros, o que o colocaria abaixo do #1 e bem dentro da categoria dos citadinos eléctricos mais compactos do mercado europeu. Para efeitos de comparação, o Renault Twingo E-Tech, um dos principais concorrentes naturais, mede 3,61 metros.

O habitáculo, de acordo com os materiais apresentados pela Smart, foi desenhado com foco na experiência dos dois ocupantes: ecrãs flutuantes, materiais sustentáveis e uma arquitectura que privilegia a sensação de espaço apesar da pegada reduzida.

Arquitectura eléctrica e autonomia esperada

A Smart não revelou especificações técnicas definitivas para o Concept #2, mas o contexto da plataforma partilhada com a Geely permite algumas deduções fundamentadas. O #1 e o #3 assentam na plataforma SEA (Sustainable Experience Architecture), desenvolvida pelo grupo Geely, que suporta baterias entre 49 e 66 kWh e motorizações entre 200 e 315 kW.

Para o #2, espera-se uma versão mais compacta desta arquitectura, com baterias de menor capacidade, provavelmente entre 30 e 45 kWh, suficientes para proporcionar autonomias entre 250 e 350 km em ciclo WLTP. Este intervalo seria adequado para o perfil de utilização urbana e periurbana que o modelo visa servir.

A carga rápida em corrente contínua deverá estar presente, à semelhança dos restantes modelos da gama. A tracção traseira parece ser a configuração mais provável para a versão base, com eventual variante de tracção integral para mercados específicos.

O mercado europeu: onde o #2 faz todo o sentido

detalhe do exterior do Smart Concept #2, destacando elementos de design como ópticas e jantes

Em Portugal, como em grande parte da Europa, a procura por eléctricos compactos e acessíveis está condicionada pela escassez de oferta neste segmento. O Citroën ë-C3 e o Renault Twingo E-Tech são os principais pontos de referência, mas a Smart teria a capacidade de acrescentar uma proposta com maior sofisticação tecnológica e uma marca com forte reconhecimento no segmento premium urbano.

O contexto regulatório europeu também favorece este tipo de veículo. As zonas de baixas emissões que se multiplicam nas capitais e cidades médias europeias, incluindo Lisboa e Porto no horizonte próximo, criam incentivos concretos para citadinos eléctricos. Um #2 com preço competitivo posicionar-se-ia directamente nesta janela de mercado.

A questão do preço é, contudo, central. O #1 parte de valores acima dos 35.000 euros em Portugal, o que o afasta do segmento de entrada. Para o #2 ser bem-sucedido como substituto do ForTwo, terá de se aproximar dos 25.000 euros, um objectivo ambicioso mas não impossível com a estrutura de custos da plataforma Geely.

Quando e como chegará ao mercado

A Smart não anunciou uma data oficial de produção para o Concept #2. No entanto, o padrão de lançamentos da marca nos últimos anos sugere um processo relativamente rápido entre concept e produção: o #1 foi apresentado como concept em 2021 e chegou ao mercado em 2022, enquanto o #3 seguiu uma cadência semelhante.

Se a Smart mantiver esta dinâmica, um modelo de produção baseado no Concept #2 poderia estar disponível entre 2026 e 2027. A produção, à semelhança dos restantes modelos da gama actual, deverá decorrer nas instalações da fábrica conjunta da Geely em Xangai, o que coloca inevitavelmente o tema das tarifas aduaneiras europeias sobre veículos eléctricos fabricados na China na equação comercial.

Este é precisamente um dos desafios que a Smart terá de gerir: posicionar o #2 a um preço competitivo num mercado europeu onde os eléctricos chineses enfrentam barreiras tarifárias crescentes. A parceria com a Mercedes-Benz e a identidade premium da marca poderão ser argumentos diferenciadores, mas o preço final será determinante para o sucesso do modelo.

O que distingue o #2 dos seus concorrentes directos

O segmento dos citadinos eléctricos compactos está a tornar-se cada vez mais competitivo. Além do Renault Twingo E-Tech e do Citroën ë-C3, modelos como o Volkswagen ID.2 e o futuro Fiat Grande Panda eléctrico vão pressionar este espaço de mercado nos próximos dois anos. Neste contexto, o Smart #2 precisará de argumentos claros para se diferenciar.

A conectividade é um dos pontos onde a marca tem demonstrado ambição. O sistema de infoentretenimento dos modelos actuais, baseado em Android Automotive com integração nativa de serviços Google, é um dos mais completos do segmento. Aplicado a um citadino de entrada, pode ser um factor decisivo para compradores mais jovens.

A herança do ForTwo é também um activo de marketing considerável. Em cidades como Lisboa, Madrid ou Amesterdão, o nome Smart permanece associado à liberdade de circulação urbana. Reativar essa associação com um produto tecnologicamente actualizado é uma oportunidade que, bem executada, pode valer muito mais do que qualquer campanha publicitária.

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