Escolher entre um automóvel híbrido e um elétrico já não é apenas uma questão de preferência pela tecnologia. Para quem utiliza o carro todos os dias, pode representar uma diferença de centenas ou mesmo mais de mil euros por ano.

Mas dizer simplesmente que o elétrico é sempre mais barato de utilizar também pode ser enganador.

A diferença depende dos quilómetros percorridos, do consumo do automóvel e, sobretudo, de onde é feito o carregamento. Um condutor que carrega quase sempre em casa pode ter uma experiência económica muito diferente de outro que depende diariamente da rede pública.

Por isso, fizemos as contas para vários cenários.

Primeiro, o que estamos a comparar?

Quando falamos de híbrido neste artigo referimo-nos a um full hybrid, ou HEV. Este tipo de automóvel combina um motor de combustão com um motor elétrico e uma pequena bateria, que é carregada pelo próprio sistema durante a condução.

Não precisa de ser ligado à tomada.

É diferente de um híbrido plug-in, ou PHEV, que tem uma bateria maior e pode ser carregado externamente, permitindo percorrer dezenas de quilómetros em modo exclusivamente elétrico.

Do outro lado está o automóvel 100% elétrico, que não utiliza gasolina nem gasóleo e depende exclusivamente da energia armazenada na bateria.

As contas começam pelo consumo

condutor urbano em Lisboa a carregar veículo elétrico num posto público

Para tornar a comparação fácil de acompanhar, vamos utilizar valores representativos de automóveis eficientes atualmente disponíveis no mercado.

Consideramos um consumo de 4,1 l/100 km para o híbrido.

Para o elétrico utilizamos 14,6 kWh/100 km, um valor que encontramos atualmente em modelos elétricos compactos disponíveis no mercado.

São valores de homologação e não uma promessa do que cada condutor irá obter. Temperatura, velocidade, trânsito, utilização da climatização, carga transportada e estilo de condução podem alterar significativamente o consumo real.

O objetivo é termos uma base consistente para perceber a dimensão das diferenças.

Quanto custa fazer 100 km num híbrido?

Vamos começar pelo híbrido.

Para facilitar as contas e evitar que o artigo fique rapidamente desatualizado com as oscilações semanais da gasolina, consideramos um preço de referência de 2 euros por litro, próximo dos valores que os combustíveis têm atingido em Portugal.

Com um consumo de 4,1 l/100 km, a conta é simples:

4,1 x 2 € = 8,20 €

Ou seja, neste cenário, percorrer 100 km num híbrido custa aproximadamente 8,20 euros em combustível.

Se o preço da gasolina baixar para 1,80 €/l, o mesmo percurso passa a custar 7,38 euros.

Se subir para 2,10 €/l, passa para 8,61 euros.

É importante ter isto presente porque uma diferença de alguns cêntimos no combustível pode ter um impacto significativo quando multiplicada por milhares de quilómetros.

E quanto custa fazer 100 km num elétrico carregado em casa?

Aqui a resposta é menos imediata porque não existe um único preço doméstico da eletricidade.

O custo depende do comercializador, da tarifa contratada, da potência, do ciclo horário e das restantes componentes da fatura.

Para tornar as contas fáceis de acompanhar, vamos utilizar 0,20 €/kWh como cenário de referência para carregamento doméstico.

Com um consumo de 14,6 kWh/100 km:

14,6 x 0,20 € = 2,92 €

Percorrer 100 km custaria, portanto, cerca de 2,92 euros.

Mesmo que considerássemos eletricidade a 0,25 €/kWh:

14,6 x 0,25 € = 3,65 €

A diferença face aos 8,20 euros do híbrido continua a ser significativa.

Híbrido vs elétrico: quanto custa ao fim de um ano?

Agora começam as contas realmente interessantes.

Mantendo os mesmos pressupostos, ou seja, um híbrido com consumo de 4,1 l/100 km e gasolina a 2 €/l e um elétrico com consumo de 14,6 kWh/100 km e eletricidade doméstica a 0,20 €/kWh, obtemos:

Distância anualHíbridoElétrico em casaDiferença
10.000 km820 €292 €528 €
15.000 km1.230 €438 €792 €
20.000 km1.640 €584 €1.056 €
30.000 km2.460 €876 €1.584 €

É aqui que se percebe porque é que a possibilidade de carregar em casa é tão importante na decisão.

Para alguém que percorra 20.000 km por ano, neste cenário, a diferença supera os 1.000 euros anuais apenas em energia.

Ao fim de cinco anos, mantendo os mesmos preços, consumos e quilometragem, seriam mais de 5.000 euros de diferença.

Mas ainda falta uma parte importante da equação.

E se não conseguir carregar em casa?

Aqui a vantagem do elétrico pode diminuir bastante.

O custo do carregamento público não corresponde simplesmente ao preço de um kWh doméstico. Na rede pública podem existir diferentes componentes de preço, dependendo do comercializador, operador, posto utilizado e condições do carregamento.

Por isso, não existe um preço único que possamos aplicar a todos os carregamentos públicos.

Vamos então criar dois cenários meramente ilustrativos.

Se o custo efetivo for 0,40 €/kWh:

14,6 x 0,40 € = 5,84 € por 100 km

Se atingir 0,60 €/kWh:

14,6 x 0,60 € = 8,76 € por 100 km

E aqui a comparação muda completamente.

Cenário para 15.000 km/anoCusto anual
Híbrido, gasolina a 2 €/l1.230 €
Elétrico, casa a 0,20 €/kWh438 €
Elétrico, público a 0,40 €/kWh876 €
Elétrico, público a 0,60 €/kWh1.314 €

No último cenário, o custo energético do elétrico seria mesmo ligeiramente superior ao do híbrido utilizado na nossa comparação.

Isto não significa que carregar na rede pública custe sempre 0,60 €/kWh. Os valores de 0,40 e 0,60 euros são apenas cenários utilizados para demonstrar como o custo do carregamento pode alterar as contas.

Quem depende da rede pública deve, por isso, analisar os postos e tarifários que realmente irá utilizar antes de comprar o automóvel.

Ter garagem pode mudar completamente as contas

Esta é provavelmente uma das conclusões mais importantes para quem está a escolher entre híbrido e elétrico.

Se tem garagem ou lugar de estacionamento onde consegue instalar uma solução de carregamento e pode carregar regularmente em casa, o elétrico parte com uma vantagem muito significativa no custo da energia.

Além disso, o carro pode carregar durante as horas em que está estacionado, eliminando grande parte da necessidade de deslocações específicas para carregar.

Quem tiver uma tarifa de eletricidade com diferentes períodos horários poderá ainda conseguir concentrar os carregamentos nas horas em que a energia é mais barata.

Para quem não tem essa possibilidade e depende exclusivamente da rede pública, a decisão é bastante menos óbvia.

O elétrico pode continuar a fazer sentido, mas será necessário considerar preços, disponibilidade e localização dos carregadores utilizados regularmente.

Quanto mais conduz, maior pode ser a diferença

painel de instrumentos de um carro híbrido plug-in a mostrar autonomia elétrica e a gasolina

Existe outro efeito importante.

Quanto maior a quilometragem anual, maior é a importância do custo por quilómetro.

No nosso cenário doméstico, a diferença é de:

8,20 € - 2,92 € = 5,28 € por cada 100 km

Isso representa cerca de 528 euros aos 10.000 km, mas ultrapassa 1.500 euros aos 30.000 km.

Para alguém que utiliza pouco o automóvel, a diferença anual pode não justificar pagar substancialmente mais pelo elétrico.

Para quem percorre muitos quilómetros e consegue carregar em casa, a situação pode ser exatamente a inversa.

Mas falta uma conta: quanto custa comprar o carro?

Comparar apenas energia seria incompleto.

Um automóvel que poupa 800 euros por ano, mas custa mais 8.000 euros, pode necessitar de muitos anos para recuperar a diferença inicial.

É aqui que entra o chamado ponto de equilíbrio.

E a diferença de preço entre híbridos e elétricos já não é necessariamente tão elevada como foi no passado. Atualmente é possível encontrar modelos de segmentos próximos com preços de aquisição relativamente semelhantes, embora a comparação tenha sempre de considerar equipamento, potência, dimensões e autonomia.

Por isso, a conta correta não é apenas perceber quanto se poupa por cada 100 km.

É perceber quanto custa comprar cada automóvel e quantos quilómetros serão necessários para recuperar uma eventual diferença de preço.

Quanto tempo pode demorar a recuperar a diferença?

Imagine dois automóveis equivalentes em que o elétrico custa mais 4.000 euros.

Se o condutor percorrer 15.000 km por ano e conseguir poupar os 792 euros anuais calculados anteriormente:

4.000 ÷ 792 = cerca de 5 anos

Se percorrer 20.000 km e poupar 1.056 euros por ano:

4.000 ÷ 1.056 = cerca de 3,8 anos

Mas se depender de carregamentos públicos mais caros e poupar apenas 200 ou 300 euros por ano, recuperar os mesmos 4.000 euros poderá demorar mais de uma década.

E se os dois automóveis tiverem preços de compra muito próximos, o elétrico pode começar a proporcionar uma vantagem económica bastante mais cedo.

É por isso que não existe uma resposta universal à pergunta “elétrico ou híbrido?”.

Na cidade, qual compensa mais?

Os dois sistemas estão particularmente à vontade em ambiente urbano.

Num full hybrid, o motor elétrico permite recuperar energia durante as desacelerações e utilizar essa energia posteriormente, reduzindo a necessidade de funcionamento do motor de combustão.

Num elétrico, o trânsito urbano também pode favorecer a eficiência, sobretudo devido à regeneração e às velocidades médias mais baixas.

Para alguém que percorre diariamente 30 ou 40 km em cidade e consegue carregar em casa, o elétrico tende a apresentar uma vantagem clara em custos energéticos.

Sem possibilidade de carregamento doméstico, o híbrido torna-se uma alternativa muito interessante porque oferece parte das vantagens da eletrificação sem alterar os hábitos de abastecimento.

E para quem faz muita autoestrada?

A equação torna-se mais equilibrada.

Os híbridos tendem a retirar menos partido da componente elétrica em longos períodos de velocidade elevada do que no trânsito urbano.

Nos elétricos, por outro lado, velocidades elevadas aumentam o consumo e reduzem a autonomia disponível, podendo obrigar a carregamentos durante viagens longas.

Isto não torna nenhum dos dois inadequado para autoestrada.

Mas um condutor que faça regularmente grandes viagens deve considerar não apenas o custo por quilómetro, mas também a autonomia, a disponibilidade de carregadores e o tempo necessário para carregar.

Para quem não quer alterar qualquer hábito nas viagens longas, o híbrido continua a ter uma vantagem evidente de conveniência.

E a manutenção?

Aqui o elétrico tem uma vantagem estrutural.

Não tem óleo do motor, velas, sistema de escape ou muitos dos componentes associados a um motor de combustão.

Isso não significa manutenção zero.

Pneus, suspensão, travões, climatização, filtros e outros componentes continuam a precisar de acompanhamento e substituição.

O híbrido, apesar de utilizar o motor elétrico para reduzir a utilização do motor de combustão em determinadas situações, continua a possuir ambos os sistemas.

O custo efetivo de manutenção dependerá, contudo, do modelo, utilização e planos de manutenção de cada fabricante.

E a bateria?

comparação lado a lado de um carro híbrido HEV e um carro elétrico BEV num parque de estacionamento português

É uma das principais preocupações de quem pondera comprar um elétrico.

As baterias perdem gradualmente alguma capacidade com o tempo e utilização, mas os fabricantes oferecem normalmente garantias específicas para este componente, frequentemente mais longas do que a garantia geral do automóvel.

Na compra de um elétrico usado, o estado de saúde da bateria deve ser um dos elementos analisados, juntamente com o histórico de utilização, quilometragem e condições de garantia ainda existentes.

Também nos híbridos existe uma bateria de alta tensão, embora seja geralmente bastante mais pequena do que a utilizada num automóvel totalmente elétrico.

Então, híbrido ou elétrico: qual compensa mais?

Depois das contas, a resposta torna-se mais clara.

Perfil de utilizaçãoOpção que tende a fazer mais sentido
Cidade + carregamento em casaElétrico
30 a 60 km diários + carregamento em casaElétrico
Mais de 20.000 km/ano + carregamento domésticoElétrico
Cidade sem possibilidade de carregarHíbrido
Poucos quilómetros por anoDepende do preço de compra
Dependência total da rede públicaÉ necessário fazer contas ao tarifário
Muitas viagens longasHíbrido ganha em conveniência
Segundo carro para utilização urbanaElétrico
Utilização mista sem garagemHíbrido

Para quem consegue carregar em casa e percorre muitos quilómetros, é difícil ignorar a vantagem económica que um elétrico pode conseguir no custo da energia.

Para quem não dispõe de carregamento doméstico, faz poucos quilómetros ou percorre frequentemente grandes distâncias, o híbrido continua a ser uma solução muito racional.

No final, a questão não é saber se o híbrido ou o elétrico é melhor.

É perceber quanto conduz, onde conduz e, no caso do elétrico, onde vai carregar. São essas três respostas, juntamente com o preço de compra, que podem fazer uma diferença de milhares de euros ao longo dos anos.

Perguntas frequentes

É mais barato carregar um elétrico ou abastecer um híbrido?

Quando o elétrico é carregado maioritariamente em casa, tende a apresentar um custo energético por quilómetro significativamente inferior. Na rede pública, a diferença depende do preço efetivo do carregamento.

Um híbrido precisa de ser carregado?

Um full hybrid não. A bateria é carregada através do próprio sistema do automóvel. Já um híbrido plug-in possui uma bateria maior e deve ser ligado a uma fonte externa para aproveitar plenamente a sua autonomia elétrica.

Compensa comprar um elétrico sem garagem?

Pode compensar, mas é necessário analisar os preços e a disponibilidade da rede pública que irá utilizar. Sem carregamento doméstico, uma das principais vantagens económicas e práticas do elétrico pode diminuir.

Quantos quilómetros tenho de fazer para compensar um elétrico?

Não existe um número universal. Depende da diferença de preço na compra, do consumo dos automóveis, do custo da gasolina e do preço da eletricidade. Quanto maior a quilometragem e mais barato for o carregamento, mais rapidamente uma eventual diferença de preço pode ser recuperada.

Qual é melhor para fazer muita autoestrada?

Depende das prioridades. Um elétrico pode fazer longas viagens, mas exige considerar autonomia e carregamentos. Um híbrido permite abastecer rapidamente em qualquer posto e tende a exigir menos alterações aos hábitos de quem percorre frequentemente grandes distâncias.

O elétrico é sempre mais barato?

Não. Pode ser muito mais barato em energia quando carregado em casa, mas o preço de compra, carregamento público, seguro, manutenção, desvalorização e outros custos também devem ser considerados. A comparação deve ser feita pelo custo total de utilização e não apenas pelo preço da energia.

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