A inteligência artificial está a transformar setores tão diferentes como a tecnologia, a saúde ou a indústria. Mas há uma consequência menos óbvia desta revolução: o próximo automóvel que comprar também pode acabar por ficar mais caro.
A explicação está, em parte, num componente que durante muitos anos passou praticamente despercebido no setor automóvel: a memória.
Os centros de dados necessários para desenvolver e executar sistemas de inteligência artificial estão a consumir quantidades cada vez maiores de memória e armazenamento. Ao mesmo tempo, os automóveis modernos também precisam de cada vez mais capacidade para suportar sistemas de infotainment, conectividade, assistência à condução e outras funções digitais.
O resultado é uma disputa por componentes que começa a preocupar a indústria automóvel e que já levou alguns dos maiores fabricantes mundiais a procurar garantir o fornecimento de memória para os próximos anos.
Mas a memória é apenas uma parte da história. A crescente utilização de inteligência artificial e software nos automóveis exige também processadores mais potentes, sensores, desenvolvimento de software e infraestruturas digitais. Tudo isto tem um custo.
O que tem a inteligência artificial a ver com o preço dos carros?
À primeira vista, pouco.
Os grandes modelos de inteligência artificial são executados em enormes centros de dados equipados com processadores especializados, enquanto um automóvel utiliza sistemas eletrónicos desenvolvidos especificamente para funcionar durante anos em condições muito diferentes.
Mas ambos dependem de uma indústria comum: os semicondutores.
O crescimento da inteligência artificial provocou uma enorme procura por memória de elevado desempenho, armazenamento e outros componentes utilizados nos servidores que suportam estes sistemas.
Para os fabricantes de semicondutores, este mercado tornou-se particularmente importante. Isso significa que uma parte crescente do investimento e da capacidade produtiva está orientada para responder à procura gerada pelos centros de dados.
E é aqui que a indústria automóvel entra na equação.
Os carros também precisam de cada vez mais memória
Há algumas décadas, a eletrónica de um automóvel estava concentrada num conjunto relativamente limitado de funções.
Hoje, a realidade é completamente diferente.
Ecrãs de grandes dimensões, sistemas multimédia, navegação, câmaras, conectividade permanente, atualizações remotas, reconhecimento de voz, assistentes digitais e sistemas avançados de ajuda à condução transformaram os automóveis em plataformas informáticas cada vez mais sofisticadas.
Todas estas funções precisam de capacidade de processamento, mas também de memória e armazenamento.
A RAM permite que os diferentes sistemas processem rapidamente a informação necessária durante o funcionamento. A memória flash, por sua vez, permite armazenar software, mapas, aplicações e outros dados.
Por isso, quando se fala da crescente necessidade de “memória” nos automóveis, não estamos apenas a falar de RAM. Estamos perante diferentes tipos de memória e armazenamento que desempenham funções distintas dentro do veículo.
Um carro moderno é cada vez mais um computador sobre rodas
A expressão já se tornou quase um cliché, mas nunca foi tão verdadeira.
Um sistema avançado de assistência à condução pode receber continuamente informação proveniente de câmaras, radares e outros sensores. Esses dados têm de ser processados suficientemente depressa para permitir ao automóvel reconhecer veículos, peões, sinais de trânsito ou os limites da faixa de rodagem.
Ao mesmo tempo, o sistema de infotainment pode estar a executar navegação, música, ligação ao smartphone e diferentes aplicações.
Quanto mais sofisticadas são estas funções, maiores tendem a ser as necessidades de processamento, memória e armazenamento.
E a memória é apenas uma parte desta transformação. Os automóveis mais avançados recorrem também a processadores de elevado desempenho, câmaras, radares, sensores e módulos de conectividade capazes de suportar quantidades crescentes de dados.
A própria inteligência artificial começa também a entrar diretamente nos automóveis. Assistentes mais avançados, reconhecimento de voz, monitorização do condutor e futuras evoluções dos sistemas de condução assistida podem aumentar ainda mais essas necessidades.
É precisamente por isso que a disponibilidade de memória deixou de ser apenas um problema da indústria informática.
O preço das memórias disparou em 2026

É aqui que surge o problema para os fabricantes automóveis.
O mercado de memórias está a atravessar um período de forte pressão, impulsionado em grande medida pela procura relacionada com inteligência artificial e centros de dados.
Os aumentos não são marginais.
Segundo estimativas da TrendForce, os preços contratuais da DRAM convencional deverão ter registado uma subida entre 58% e 63% no segundo trimestre de 2026. Para a NAND Flash, a previsão apontava para uma subida entre 70% e 75%.
Naturalmente, isto não significa que o custo das memórias utilizadas em todos os automóveis tenha aumentado exatamente nestas proporções.
Os contratos de fornecimento, os tipos de memória, os volumes negociados e as especificações dos componentes variam significativamente. As memórias utilizadas em aplicações automóveis têm também requisitos próprios de fiabilidade, longevidade e funcionamento em condições extremas.
Mas estes números mostram a dimensão da pressão que existe atualmente sobre o mercado.
E essa pressão surge precisamente numa altura em que cada nova geração de automóveis tende a depender mais destes componentes.
Ford e General Motors já estão a garantir memória para o futuro
Talvez um dos melhores indicadores da importância do problema esteja nas decisões tomadas pelos próprios fabricantes.
Em julho de 2026, a Micron anunciou acordos estratégicos de longo prazo com a General Motors e a Ford para assegurar o fornecimento de soluções de memória destinadas às futuras gerações de automóveis.
Não se trata apenas de negociar preços.
O objetivo passa também por garantir que existe capacidade suficiente para abastecer linhas de produção que necessitam destes componentes durante períodos muito longos.
Um automóvel pode permanecer em produção durante vários anos e os fabricantes precisam de assegurar que determinados componentes eletrónicos continuam disponíveis durante todo esse período.
Estes acordos mostram como a memória está a transformar-se num elemento estratégico da cadeia de abastecimento automóvel.
A indústria ainda se lembra da crise dos chips
Existe uma boa razão para os fabricantes não quererem correr riscos.
A crise mundial dos semicondutores iniciada durante a pandemia mostrou como a falta de componentes relativamente pequenos pode interromper a produção de um automóvel inteiro.
Fábricas tiveram de reduzir ou suspender temporariamente a produção, os prazos de entrega aumentaram e algumas marcas chegaram a alterar equipamentos para conseguir continuar a fabricar veículos.
A indústria aprendeu a lição.
Se existe agora a possibilidade de a procura provocada pela inteligência artificial criar novas limitações na oferta de determinados tipos de memória, garantir contratos de longo prazo é uma forma de reduzir o risco de voltar a enfrentar problemas semelhantes.
A memória não é o único custo da digitalização
Há ainda outra dimensão importante.
Mesmo que o preço das memórias estabilizasse, desenvolver automóveis cada vez mais digitais continuaria a exigir investimentos elevados.
Os fabricantes necessitam de desenvolver sistemas operativos, interfaces, aplicações, sistemas de assistência à condução e soluções de conectividade. Precisam também de equipas especializadas em áreas como desenvolvimento de software, inteligência artificial e cibersegurança.
E o trabalho não termina quando o automóvel sai da fábrica.
Um veículo conectado pode necessitar de atualizações de software, correções de segurança e manutenção dos serviços digitais durante muitos anos.
A crescente digitalização dos automóveis significa, portanto, que o custo tecnológico não está apenas no hardware instalado dentro do veículo. Está também no desenvolvimento e manutenção de todo o ecossistema necessário para o fazer funcionar.
O custo da tecnologia pode continuar depois da compra
Esta transformação está igualmente a alterar a relação entre o fabricante e o proprietário.
Durante décadas, a lógica era relativamente simples: o cliente comprava o automóvel e o equipamento incluído ficava disponível durante toda a vida do veículo.
O software tornou essa fronteira menos clara.
Algumas marcas têm experimentado modelos em que determinadas funcionalidades digitais, serviços conectados ou atualizações são disponibilizados através de pagamentos adicionais ou subscrições.
Isso significa que o impacto económico da crescente digitalização pode não aparecer exclusivamente no preço de compra.
No futuro, uma parte crescente do valor associado ao automóvel poderá estar relacionada com serviços digitais utilizados durante a sua vida útil.
Para o consumidor, isto torna mais importante perceber não apenas que equipamentos estão instalados no carro, mas também quais permanecem disponíveis sem pagamentos adicionais.
Mas a memória representa assim tanto no preço de um carro?
É aqui que é preciso colocar o problema em perspetiva.
O aumento do preço das memórias não significa que um automóvel de 30.000 euros passe automaticamente a custar milhares de euros adicionais.
A memória é apenas uma das muitas componentes que determinam o custo de produção de um veículo.
Aço, alumínio, baterias, motores, eletrónica de potência, semicondutores, sistemas de segurança, mão de obra, transporte e desenvolvimento tecnológico também entram na equação.
Além disso, os grandes fabricantes negoceiam contratos de fornecimento que podem protegê-los parcialmente contra oscilações de curto prazo.
O problema está na acumulação.
Se a quantidade de memória necessária por automóvel aumenta ao mesmo tempo que o preço desses componentes sobe, o custo da eletrónica incorporada no veículo também fica sob pressão.
Multiplique-se uma pequena diferença por centenas de milhares ou milhões de automóveis produzidos e o impacto para um fabricante deixa rapidamente de ser insignificante.
Isso significa que os carros vão ficar mais caros?

Não necessariamente por causa deste fator isoladamente.
É impossível afirmar que determinado automóvel vai subir 500 ou 1.000 euros simplesmente porque a memória ficou mais cara.
Os fabricantes podem absorver parte dos aumentos, renegociar contratos, procurar outros fornecedores, alterar componentes ou compensar os custos noutras áreas.
Mas também podem repercutir parte desses custos no consumidor.
E existe ainda outra possibilidade: reservar determinado hardware e funcionalidades mais sofisticadas para versões superiores.
Se sistemas de infotainment mais avançados, assistência à condução ou funções baseadas em inteligência artificial exigirem hardware significativamente mais caro, algumas marcas poderão optar por diferenciá-los através de níveis de equipamento, packs opcionais ou serviços pagos.
Ou seja, o impacto pode não aparecer apenas no preço base do automóvel.
Os automóveis mais tecnológicos podem sentir mais a pressão
Nem todos os carros necessitam da mesma quantidade de memória.
Um modelo relativamente simples, com um sistema de infotainment básico e poucos sistemas avançados, tem necessidades diferentes das de um automóvel equipado com vários ecrãs, dezenas de sensores, câmaras de alta resolução e sistemas sofisticados de assistência à condução.
À medida que avançamos para veículos mais conectados e definidos por software, a importância do hardware informático aumenta.
E esta não é uma questão exclusiva dos automóveis elétricos.
Um veículo a gasolina ou híbrido altamente tecnológico também pode necessitar de grandes capacidades de processamento, memória e armazenamento.
O fator determinante é sobretudo o nível de digitalização do automóvel e não aquilo que faz mover as rodas.
E a própria IA dentro dos carros pode aumentar ainda mais a procura
Existe aqui uma ironia interessante.
A inteligência artificial está a contribuir para aumentar a procura mundial por memória através dos centros de dados, mas simultaneamente está a chegar aos próprios automóveis.
Os fabricantes estão a desenvolver assistentes capazes de compreender linguagem natural, sistemas de reconhecimento mais avançados e tecnologias de condução assistida cada vez mais sofisticadas.
Parte deste processamento pode ser realizado remotamente, mas determinadas funções precisam de funcionar localmente, sobretudo quando estão relacionadas com segurança e necessitam de respostas praticamente instantâneas.
Isso exige processadores mais potentes e memória suficientemente rápida para os acompanhar.
Quanto mais inteligente se tornar o automóvel, maior poderá ser a quantidade de hardware necessária para o fazer funcionar.
Mas a IA também pode ajudar a reduzir o preço dos carros?
A relação entre inteligência artificial e custos não funciona apenas num sentido.
Os próprios fabricantes estão a utilizar IA para otimizar processos industriais, melhorar o controlo de qualidade, prever necessidades de manutenção nas fábricas, acelerar determinadas fases do desenvolvimento e reduzir desperdícios.
Estes ganhos de produtividade podem ajudar a compensar parte do aumento dos custos tecnológicos.
Existe ainda outro fator: aquilo que hoje é caro pode tornar-se progressivamente mais acessível à medida que aumenta a escala de produção.
A história do automóvel está cheia de exemplos. Equipamentos que começaram por estar reservados aos modelos mais caros acabaram por chegar aos segmentos inferiores à medida que a tecnologia amadureceu e os volumes aumentaram.
Algo semelhante poderá acontecer com parte do hardware necessário para suportar funções avançadas e inteligência artificial.
Isto não elimina a atual pressão sobre o mercado das memórias, mas significa que mais tecnologia não implica necessariamente que os automóveis fiquem indefinidamente mais caros.
Um novo componente estratégico para a indústria automóvel
Durante décadas, as preocupações dos fabricantes estavam sobretudo relacionadas com matérias-primas, motores, transmissões ou capacidade das fábricas.
Hoje, um pequeno módulo de memória pode tornar-se tão importante para manter uma linha de produção em funcionamento como muitos componentes mecânicos tradicionais.
Os acordos de longo prazo que começam a surgir entre fabricantes automóveis e produtores de memória mostram precisamente essa mudança.
A inteligência artificial não é, por si só, responsável pelo preço dos automóveis. Nem podemos afirmar que os carros vão ficar substancialmente mais caros apenas por causa da RAM.
Mas a explosão da procura por infraestrutura de IA está a transformar o mercado mundial dos semicondutores ao mesmo tempo que os automóveis necessitam de cada vez mais memória, armazenamento e capacidade de processamento.
A isto somam-se processadores mais avançados, sensores, desenvolvimento de software, cibersegurança e infraestruturas digitais que ajudam a transformar o automóvel moderno numa máquina cada vez mais tecnológica.
E quando duas indústrias com necessidades crescentes começam a disputar capacidade e componentes produzidos por um número limitado de fabricantes, a pressão sobre os custos aumenta.
Uma parte dessa conta poderá acabar por chegar ao preço do próximo automóvel.
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