O fim dos carros a combustão em 2035 é uma das decisões regulatórias mais impactantes da história do automóvel europeu, e Portugal não está imune às suas consequências. A partir dessa data, a União Europeia proíbe a venda de veículos novos com motores a gasolina ou diesel, obrigando fabricantes e consumidores a uma transição sem precedentes. O que muda, concretamente, para quem vive e conduz em Portugal?

O que diz exactamente a legislação europeia

Painel de instrumentos de um carro eléctrico moderno em estrada portuguesa, com indicador de autonomia visível

O regulamento aprovado pelo Parlamento Europeu e pelo Conselho estabelece que, a partir de 1 de Janeiro de 2035, não podem ser vendidos automóveis novos de passageiros nem veículos comerciais ligeiros novos que emitam CO?. Na prática, isso significa o fim das vendas de carros novos a gasolina, gasóleo, GPL e gás natural. Os híbridos convencionais, que dependem de um motor de combustão para funcionar, também ficam de fora. Apenas os veículos com zero emissões no escape, essencialmente eléctricos a bateria e a hidrogénio, poderão continuar a ser comercializados como novos.

É fundamental sublinhar o que a lei não diz: não há qualquer proibição de circular com carros a combustão já existentes, nem de transaccionar veículos usados. O mercado de segunda mão de automóveis a gasolina e diesel permanece legal e funcional. A norma incide exclusivamente sobre a primeira matrícula de veículos novos no espaço comunitário. Portugal, como Estado-membro, está vinculado a este regulamento sem necessidade de legislação nacional adicional.

A Comissão Europeia introduziu ainda uma cláusula de revisão prevista para 2026, que avaliará o progresso da transição e a disponibilidade de infraestruturas de carregamento. Vozes da indústria e alguns governos continuam a pressionar para abrir excepções, nomeadamente para os chamados e-fuels, combustíveis sintéticos de carbono neutro. A Alemanha já obteve uma concessão específica nesse sentido, mas o debate está longe de encerrado, como a posição recente da UE deixa antever.

O impacto real no condutor português médio

Portugal tem características específicas que tornam esta transição simultaneamente urgente e desafiante. O parque automóvel nacional é dos mais envelhecidos da Europa Ocidental, com uma idade média que ronda os 14 anos. Isso significa que, mesmo após 2035, a maioria dos portugueses continuará a conduzir veículos a combustão durante muitos anos, simplesmente porque não haverá capacidade financeira nem oferta suficiente para substituir o parque existente de forma célere.

O acesso à mobilidade eléctrica em Portugal enfrenta obstáculos estruturais. A rede de carregamento rápido fora dos grandes centros urbanos permanece insuficiente, penalizando quem vive no interior ou faz percursos inter-regionais com regularidade. O custo de aquisição de eléctricos novos, apesar de ter descido nos últimos anos, mantém-se acima da média do que um comprador português gasta num automóvel. A título de comparação, o preço médio de transacção de um carro novo em Portugal situa-se abaixo dos 30.000 euros, enquanto a maioria dos eléctricos com autonomia prática aceitável começa perto dos 35.000 euros.

A boa notícia é que as ajudas públicas têm procurado colmatar parte dessa diferença. O Estado português mantém incentivos fiscais à compra de eléctricos, com isenção de IUC, benefícios em IRS e programas de subsidiação directa. Para 2026, o Governo anunciou dotações específicas para apoiar a aquisição de veículos de emissões zero, numa tentativa de acelerar a penetração no mercado.

O que acontece aos carros a combustão que já existem

Posto de carregamento eléctrico em auto-estrada portuguesa com vários veículos em carregamento simultâneo

Uma das maiores fontes de confusão entre os condutores diz respeito ao destino dos veículos actuais. Importa ser claro: nenhuma norma europeia obriga à abate ou à restrição de circulação de veículos a combustão já matriculados. Quem hoje tem um diesel de 2018 pode continuar a usá-lo indefinidamente, desde que cumpra as regras de inspecção periódica e as eventuais restrições de circulação em zonas de emissões baixas, que são decididas ao nível municipal, não europeu.

Lisboa e Porto têm vindo a estudar e a implementar zonas de emissões controladas, mas os critérios e calendários são distintos da norma de 2035 e obedecem a lógicas locais de qualidade do ar. O que se pode antecipar é uma eventual desvalorização progressiva dos veículos a combustão no mercado de usados à medida que 2035 se aproximar, não por proibição legal, mas por efeito de procura reduzida e custos de manutenção crescentes à medida que as peças e os técnicos especializados se tornarem mais escassos a longo prazo.

Para quem pondera adquirir um carro a combustão usado nos próximos anos, o horizonte até 2035 oferece ainda uma janela de utilização confortável. Saiba mais sobre o que significa realmente o fim dos carros a combustão antes de tomar uma decisão de compra.

A incerteza política e o que pode ainda mudar

O regulamento de 2035 não está gravado em pedra. O ambiente político europeu alterou-se significativamente desde a aprovação da norma, com partidos de centro-direita e direita a ganhar terreno em vários países e a questionar a rigidez do calendário. A revisão prevista para 2026 pode resultar em ajustes ao prazo, na admissão formal dos e-fuels ou na criação de excepções para determinados segmentos de mercado.

A indústria automóvel, por seu lado, já investiu centenas de milhares de milhões de euros na transição eléctrica, o que cria uma pressão contrária: as marcas que apostaram na electrificação têm interesse em que as regras se mantenham estáveis. O que o mercado diz actualmente é que a procura de eléctricos cresce, mas a um ritmo inferior ao inicialmente projectado pelos modelos mais optimistas, gerando tensão entre os calendários regulatórios e a realidade comercial.

Para os condutores portugueses, a mensagem prática é esta: a data de 2035 permanece em vigor, mas o caminho até lá está sujeito a revisões. Acompanhar a evolução da legislação e dos incentivos disponíveis é tão importante como a decisão sobre que carro comprar a seguir. Sobre os cenários em aberto, vale a pena conhecer a perspectiva de quem defende que 2035 pode não ser o fim definitivo que parece.

O que muda para mim se comprar um carro a combustão hoje?

Um veículo a combustão adquirido agora pode circular legalmente em Portugal muito além de 2035. O que pode mudar são as condições de acesso a determinadas zonas urbanas, os custos de combustível face à electricidade e, eventualmente, o valor de revenda. Não existe qualquer plano de proibição de circulação a nível nacional.

Os híbridos plug-in também acabam em 2035?

Os híbridos plug-in (PHEV) emitem CO2 no escape quando o motor de combustão está activo, pelo que, tecnicamente, não cumprem o critério de zero emissões. A sua venda como novos ficará também proibida, salvo se uma eventual revisão regulatória criar excepções para esta categoria. Os híbridos convencionais (sem ligação à tomada) estão definitivamente fora do mercado de novos a partir de 2035.

Leia também:

Leia também