O diesel perdeu grande parte do protagonismo que teve durante décadas na Europa, mas ainda não chegou a hora de escrever o seu obituário. Pelo menos para a BMW.

A marca alemã espera continuar a comercializar versões diesel dos seus grandes SUV durante a década de 2030, nos mercados onde esta motorização continuar a ter procura e onde a regulamentação o permita.

A informação tem origem em declarações de Brendan Michel, responsável de Product and Market Planning da BMW Australia, que apontou para a continuidade dos motores diesel nos X5 e X7 durante a próxima década.

Isto não significa que a BMW esteja a anunciar um regresso do diesel ou que esta motorização vá permanecer disponível em todos os mercados. Mostra, isso sim, que a marca não pretende abandonar uma tecnologia que continua a fazer sentido para determinados automóveis, utilizações e clientes.

E o novo BMW X5 é talvez o melhor exemplo desta estratégia.

O novo BMW X5 mostra como será esta estratégia

Motor diesel BMW de seis cilindros em linha, com destaque para a arquitectura modular da unidade motriz

A nova geração do BMW X5 ajuda a perceber a abordagem da marca aos próximos anos.

Em vez de apostar exclusivamente numa tecnologia, a BMW desenvolveu uma gama capaz de acomodar diferentes soluções de propulsão. Entre elas encontra-se precisamente o X5 40d xDrive, confirmando que o diesel continua a fazer parte dos planos para um dos SUV mais importantes da marca.

Ao mesmo tempo, o novo X5 contempla diferentes formas de eletrificação, incluindo uma variante totalmente elétrica. A estratégia permite à BMW responder a diferentes mercados e perfis de utilização sem obrigar todos os clientes a seguir exatamente o mesmo caminho.

Isto ajuda também a perceber porque a continuidade do diesel não representa uma mudança de rumo relativamente ao automóvel elétrico. As diferentes tecnologias poderão coexistir enquanto existir procura e enquadramento regulamentar para isso.

Porque é que a BMW ainda não quer abandonar o diesel?

A resposta está sobretudo no tipo de automóvel e na utilização que muitos clientes fazem dele.

Num grande SUV destinado a percorrer longas distâncias, o diesel continua a apresentar características difíceis de ignorar. Consumos relativamente reduzidos tendo em conta o peso e as dimensões do veículo, elevada autonomia e disponibilidade de binário a baixas rotações são argumentos importantes para determinados condutores.

Estas vantagens tornam-se particularmente relevantes para quem percorre muitos quilómetros em autoestrada, realiza frequentemente viagens longas ou necessita de um automóvel de grandes dimensões.

É também por isso que a sobrevivência do diesel poderá acontecer sobretudo nos segmentos superiores e não nos pequenos automóveis.

Durante muitos anos era perfeitamente normal encontrar motores diesel em utilitários, compactos, familiares, berlinas e SUV. Essa realidade mudou radicalmente.

O futuro desta tecnologia poderá passar por um papel muito mais especializado, concentrado em grandes SUV, automóveis destinados a percorrer muitos quilómetros e mercados onde as longas distâncias continuam a favorecer este tipo de motorização.

Isso significa que o diesel está de volta?

Não. Essa é provavelmente a distinção mais importante de toda esta história.

A decisão de manter motores diesel disponíveis durante a década de 2030 não significa que a BMW espere uma recuperação desta motorização no mercado europeu.

O peso do diesel nas matrículas de automóveis novos caiu drasticamente nos últimos anos, enquanto os híbridos e os automóveis totalmente elétricos ganharam terreno.

O diesel deixou de ser a escolha dominante que chegou a representar uma parte muito significativa do mercado europeu. A questão já não é saber se voltará a atingir essa posição. Tudo indica que não.

O que importa perceber é se ainda existem utilizações suficientes para justificar a sua permanência. Para a BMW, a resposta parece continuar a ser afirmativa em determinados segmentos e mercados.

A eletrificação pode ajudar o diesel a sobreviver

BMW X5 em estrada de longa distância, ilustrando a capacidade de autonomia das versões diesel

Há aqui um aparente paradoxo: o crescimento dos automóveis elétricos pode ajudar fabricantes como a BMW a manter versões de combustão disponíveis durante mais tempo.

Quanto maior for o peso dos veículos de emissões zero nas vendas de um fabricante, mais fácil se torna reduzir as emissões médias da gama e cumprir os objetivos regulamentares aplicáveis em cada mercado. Isso pode deixar margem para continuar a oferecer motores de combustão onde exista procura e onde a legislação o permita.

É neste contexto que devem ser entendidas as declarações provenientes da BMW Austrália.

Não se trata de escolher entre elétrico e diesel. A estratégia passa por disponibilizar diferentes tecnologias de acordo com as necessidades dos clientes, as características de cada mercado e os limites impostos pela regulamentação.

A BMW tem consciência deste cenário. A marca investiu fortemente na eletrificação, com uma aposta de dez mil milhões de euros para revolucionar a sua gama elétrica, mas continua, em paralelo, a disponibilizar motores de combustão nos modelos e mercados onde considera que existe procura.

Essa filosofia fica clara no segmento dos SUV: modelos como os BMW X5 e X6 continuam a disponibilizar motorizações diesel, combinando tração integral, desempenho e autonomia para quem privilegia viagens de longa distância.

Há ainda outra aposta: o HVO100

A BMW está também a explorar uma forma diferente de reduzir a pegada carbónica dos automóveis diesel que continuam em circulação.

Desde janeiro de 2025, os modelos diesel produzidos pela BMW na Alemanha recebem HVO100 no primeiro abastecimento efetuado em fábrica.

HVO significa Hydrotreated Vegetable Oil, ou óleo vegetal hidrotratado, e corresponde a um combustível renovável que pode ser produzido a partir de diferentes matérias-primas, incluindo resíduos e óleos alimentares usados.

Segundo a BMW, o HVO100 utilizado pela marca pode permitir uma redução de aproximadamente 90% das emissões de CO2 equivalente face ao diesel fóssil, quando considerado o ciclo do combustível numa análise desde a produção até à utilização.

Mas há uma distinção importante: isto não significa que um automóvel passe a emitir menos 90% de CO2 pelo tubo de escape.

A redução indicada pela marca considera o balanço das emissões associadas ao combustível numa perspetiva mais ampla, tendo em conta a sua produção e utilização. É, portanto, uma comparação do ciclo do combustível e não uma redução equivalente das emissões diretamente produzidas pelo motor.

O HVO100 pode prolongar a vida dos diesel atuais?

Este é outro ponto interessante porque a estratégia não se limita aos automóveis novos.

A BMW indica que motores diesel de várias séries e modelos produzidos desde março de 2015 estão homologados para utilizar HVO100 de acordo com a norma europeia EN 15940.

A utilização de combustíveis renováveis compatíveis com motores existentes pode, assim, contribuir para reduzir a pegada carbónica de parte do parque automóvel sem obrigar à substituição imediata dos veículos.

Há, contudo, limitações importantes. O automóvel tem de ser compatível com este tipo de combustível e o HVO100 precisa de estar disponível na rede de abastecimento, algo que ainda varia bastante entre países.

Isto não transforma o HVO100 numa alternativa direta ao automóvel elétrico, mas pode torná-lo numa solução complementar para veículos com motor de combustão que continuarão a circular durante muitos anos.

Então o diesel vai mesmo chegar à década de 2030?

Interior de um BMW Série 5 Touring diesel, com painel de instrumentos e indicadores de consumo em destaque

No caso da BMW, tudo indica que sim, pelo menos em determinados modelos e mercados.

As declarações da BMW Austrália apontam especificamente para a continuidade do diesel nos grandes SUV X5 e X7 durante a próxima década. E a nova geração do X5 demonstra que a marca continua a incluir esta tecnologia na sua estratégia ao lado das restantes motorizações.

Isso é bastante diferente de afirmar que a BMW garantiu globalmente a venda de automóveis diesel durante toda a década de 2030.

A legislação poderá mudar, a procura poderá cair mais rapidamente do que o previsto e as estratégias comerciais podem variar de mercado para mercado.

O que sabemos atualmente é que a BMW ainda não considera o diesel uma tecnologia sem futuro. Para determinados modelos e clientes, continua a ver razões para o manter disponível.

E comprar um diesel em 2026 ainda faz sentido?

Depende sobretudo da utilização.

Para quem percorre poucos quilómetros, faz essencialmente pequenos trajetos urbanos e dispõe de condições para carregar um automóvel elétrico, o diesel dificilmente será a escolha mais lógica.

A situação pode ser diferente para quem percorre dezenas de milhares de quilómetros por ano, utiliza frequentemente a autoestrada ou procura um automóvel de grandes dimensões para realizar viagens longas.

Também é necessário considerar o preço de compra, os consumos, a manutenção, a fiscalidade e as eventuais restrições à circulação existentes ou previstas nos locais onde o automóvel será utilizado.

É precisamente nos perfis de utilização intensiva e de longa distância que fabricantes como a BMW continuam a encontrar argumentos para manter o diesel disponível.

Por isso, talvez seja prematuro perguntar quando desaparecerá definitivamente o diesel. A transformação que já está a acontecer é outra: de uma das motorizações dominantes no mercado europeu, está progressivamente a tornar-se uma solução mais especializada para os automóveis, mercados e condutores que ainda conseguem tirar partido das suas características.

E, pelo menos na BMW, tudo indica que ainda haverá espaço para essa solução na década de 2030.

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