A Changan expansão internacional ganhou contornos concretos: a marca chinesa definiu como meta a venda de 1,5 milhões de automóveis fora da China até ao final desta década. Para cumprir o objectivo, a empresa acelera a diversificação da oferta, apostando em tecnologia híbrida e na penetração em mercados onde a concorrência europeia e japonesa ainda domina.

Uma meta ambiciosa com raízes num historial longo

A Changan é, para muitos consumidores europeus, um nome relativamente recente. Contudo, a empresa foi fundada em 1862 e conta hoje com mais de 160 anos de história industrial na China. Com sede em Chongqing, é um dos quatro maiores grupos automóveis do país, a par da SAIC, FAW e Dongfeng. Nos últimos anos, a marca saiu das fronteiras chinesas com uma ambição que ultrapassa o simples volume: quer estabelecer-se como referência tecnológica nos mercados onde opera.

A meta dos 1,5 milhões de unidades anuais fora da China até 2030 não surge do nada. A Changan já exporta para mais de 60 países, com presenças consolidadas no Médio Oriente, América Latina e, progressivamente, na Europa. O grupo registou, segundo dados próprios, um crescimento das exportações superior a 40 por cento em 2023 face ao ano anterior, o que coloca a trajectória em linha com o objectivo traçado.

Exterior do Changan CS75 Plus, SUV de topo de gama da marca em tom cinzento metálico

A aposta nos híbridos como chave de entrada na Europa

Se os mercados emergentes absorvem modelos de combustão interna a preços competitivos, a Europa exige uma abordagem diferente. A Changan identificou a tecnologia híbrida, incluindo plug-in, como o principal vector de entrada no continente europeu. A marca desenvolve a sua própria plataforma híbrida, designada internamente como Changan Integrated HEV Technology (CIHT), e aplica-a numa gama crescente de modelos.

A estratégia faz sentido num contexto em que as tarifas impostas pela União Europeia sobre veículos eléctricos de origem chinesa encarecem significativamente a competitividade dos BEV. Os híbridos, sujeitos a tarifas distintas, permitem à Changan manter preços atractivos sem abdicar de propulsão electrificada. A marca aposta igualmente em unidades de combustão mais eficientes, com motores de ciclo Atkinson em configurações 1.5 e 2.0 litros, para mercados onde a electrificação ainda não é prioridade regulatória.

Motor híbrido Changan CIHT exposto em corte, com destaque para o módulo eléctrico integrado

Novas marcas para segmentos distintos

A Changan não opera apenas sob a sua marca principal. O grupo desenvolve uma estratégia multi-marca que cobre desde segmentos de volume até ao premium. A Changan quer trazer duas novas marcas para o mercado internacional, direccionadas para perfis de consumidor distintos: uma focada em jovens urbanos com veículos compactos electrificados, outra posicionada num segmento premium onde o grupo pretende competir directamente com marcas como a Genesis ou a Polestar.

Esta abordagem replica, em parte, o modelo adoptado pelos grupos coreanos e japoneses nas suas fases de internacionalização. Criar sub-marcas com identidade própria permite à empresa escapar à percepção de produto de baixo custo, que ainda persiste em certos mercados ocidentais relativamente às marcas chinesas. A Deepal e a Avatr, duas das marcas sob o chapéu da Changan, são exemplos desta diversificação, sendo a Avatr desenvolvida em parceria com a Huawei e a CATL.

Changan Avatr 11 em coupé SUV, em exposição num salão automóvel, com iluminação de destaque na frente

Mercados-alvo e o papel da Europa

A Europa representa, para a Changan, um mercado de prestígio mais do que de volume no curto prazo. A presença no continente confere credibilidade técnica e regulatória que se projecta para outros mercados. A marca está já a trabalhar para obter homologações conforme as normas Euro 6e e prepara-se para os requisitos que entrarão em vigor nos próximos anos.

Portugal, embora seja um mercado pequeno em termos absolutos, integra os planos de expansão europeia da Changan. A rede de distribuição está a ser estruturada e os primeiros modelos disponíveis no país incluem SUV das gamas CS e UNI.

No Médio Oriente e em países como o México, o Brasil e a Arábia Saudita, a Changan regista já quotas de mercado relevantes, o que lhe confere o volume de base necessário para financiar a expansão nos mercados mais exigentes. A América do Sul, em particular, absorve uma fracção significativa das exportações totais do grupo.

Changan UNI-K SUV em ambiente urbano, vista de três quartos dianteira em cor azul escuro

O contexto geopolítico e as tarifas como variável crítica

A expansão internacional da Changan não decorre num vácuo. As tensões comerciais entre a China e os blocos ocidentais, nomeadamente a União Europeia e os Estados Unidos, introduzem incerteza no planeamento estratégico. As tarifas adicionais impostas pela Comissão Europeia em 2024 sobre veículos eléctricos chineses afectam directamente a competitividade dos modelos BEV da marca no mercado europeu.

A resposta da Changan passa por três eixos: reforçar a oferta híbrida (menos exposta às tarifas sobre eléctricos puros), explorar a possibilidade de produção local ou em joint-venture dentro da Europa, e apostar em mercados alternativos que crescem a ritmo mais acelerado. A África, com uma classe média em expansão e regulamentações menos restritivas, surge como novo foco de atenção para o grupo.

A estratégia também implica investimento em investigação e desenvolvimento fora da China. A Changan tem centros de I&D no Reino Unido, nos Estados Unidos e no Japão, o que lhe permite captar talento e desenvolver produtos adaptados às preferências locais, em vez de simplesmente exportar o que funciona no mercado doméstico.

Centro de design Changan no exterior, fachada moderna com logótipo da marca em destaque

A Changan já vende carros em Portugal?

Sim. A Changan está presente em Portugal com modelos das gamas CS e UNI, disponíveis através de uma rede de concessionários em expansão. Os modelos disponíveis incluem SUV com motorização de combustão e versões híbridas. A oferta deverá alargar-se nos próximos anos, à medida que a marca concluir as homologações dos novos modelos para o mercado europeu.

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Com uma meta de 1,5 milhões de unidades anuais fora da China, a Changan posiciona-se como um dos actores mais determinados da nova vaga de expansão automóvel chinesa. A concretização desse objectivo dependerá tanto da qualidade dos produtos como da capacidade de navegar um ambiente geopolítico e regulatório cada vez mais complexo.

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