A presença das marcas chinesas nas estradas europeias já deixou de ser uma novidade. A próxima grande mudança poderá, contudo, acontecer longe dos concessionários: nas próprias fábricas europeias.

As previsões apontam para um forte crescimento da produção de carros chineses na Europa durante a próxima década. Segundo estimativas da Mobility Global citadas pela imprensa especializada europeia, as marcas chinesas deverão produzir cerca de 90 mil veículos em território europeu em 2026. Em 2030, esse número poderá chegar a um milhão e, cinco anos depois, atingir 1,5 milhões de automóveis por ano.

Esta evolução significa que falar de um “carro chinês” poderá tornar-se cada vez menos uma referência ao país onde o veículo foi fabricado e cada vez mais uma indicação da origem da marca. BYD, Chery e outros fabricantes estão a apostar na produção local, enquanto diferentes análises antecipam uma presença crescente destas empresas no mercado europeu.

Carros chineses na Europa poderão ser cada vez mais produzidos localmente

A previsão de 1,5 milhões de veículos anuais representa uma transformação considerável face à realidade atual.

Segundo a Mobility Global, a produção europeia de automóveis de marcas chinesas deverá rondar as 90 mil unidades em 2026. Se as projeções se confirmarem, serão cerca de um milhão em 2030 e 1,5 milhões em 2035.

O crescimento não deverá acontecer exclusivamente através da construção de novas fábricas. A estratégia pode passar também por aproveitar unidades industriais já existentes, estabelecer parcerias com grupos europeus ou recorrer a produção contratada.

A AlixPartners identifica precisamente esta mudança de estratégia. No Global Automotive Outlook de 2026, a consultora considera que a exportação é apenas a primeira etapa da internacionalização dos fabricantes chineses, sendo a produção localizada o objetivo a mais longo prazo. Pelo caminho, poderão surgir acordos de licenciamento tecnológico, produção por contrato e joint ventures.

Ou seja, o crescimento dos carros chineses na Europa poderá deixar de depender tanto de navios que transportam veículos acabados desde a China.

Porque querem as marcas chinesas fabricar automóveis na Europa?

Existem várias razões para aproximar a produção dos consumidores europeus.

Uma das mais evidentes está relacionada com as barreiras comerciais. A União Europeia aplica direitos compensatórios adicionais às importações de determinados automóveis elétricos a bateria produzidos na China, na sequência da investigação europeia aos subsídios concedidos ao setor.

Produzir dentro da Europa permite reduzir a exposição a estes direitos aduaneiros, embora esta esteja longe de ser a única razão para investir no continente.

A produção local pode também encurtar cadeias logísticas, aproximar as fábricas dos mercados onde os veículos são vendidos e facilitar uma maior integração com fornecedores europeus.

Há ainda capacidade industrial disponível.

De acordo com a AlixPartners, as fábricas europeias têm aproximadamente 2,5 milhões de veículos de capacidade anual subutilizada. Para fabricantes que pretendem aumentar rapidamente a presença no continente, aproveitar parte dessa infraestrutura pode ser uma alternativa à construção de uma fábrica totalmente nova.

É uma oportunidade que pode beneficiar os dois lados: os fabricantes chineses ganham capacidade produtiva mais próxima dos clientes e algumas unidades industriais europeias podem receber novos projetos.

BYD prepara produção automóvel na Hungria

Vista aérea de uma fábrica automóvel moderna na Europa Central, representando a expansão da produção de marcas chinesas no continente

Um dos exemplos mais importantes desta estratégia é a BYD.

A fabricante chinesa está a instalar a sua primeira fábrica europeia de automóveis de passageiros em Szeged, na Hungria. Em junho de 2026, Stella Li, vice-presidente executiva da empresa, confirmou à Reuters que o início da produção estava previsto para o quarto trimestre de 2026.

O primeiro modelo previsto para as linhas de montagem húngaras é o Dolphin Surf.

A empresa não pretende, contudo, ficar por uma única unidade industrial europeia. A BYD tem procurado uma localização para uma segunda fábrica no continente e chegou a admitir a possibilidade de aproveitar uma unidade já existente em vez de construir novamente de raiz.

Esta opção encaixa numa tendência mais abrangente identificada pela AlixPartners: em mercados onde existem maiores barreiras à importação, as empresas chinesas estão a procurar diferentes formas de estabelecer produção local.

A passagem da exportação para a fabricação em território europeu poderá, assim, tornar-se uma das características da próxima fase de expansão destas marcas.

Espanha poderá assumir um papel central

Se as previsões da Mobility Global se concretizarem, Espanha poderá ser um dos países com maior peso nesta mudança.

As projeções colocam o país entre os principais polos de produção de automóveis de marcas chinesas durante a próxima década, aproveitando uma indústria automóvel já instalada e uma extensa rede de fornecedores.

A proximidade tem particular relevância para Portugal. Espanha é um dos maiores centros europeus de produção automóvel e qualquer expansão industrial significativa no país vizinho poderá ter efeitos indiretos sobre fornecedores, logística e cadeias de abastecimento da Península Ibérica.

Ainda assim, convém separar projetos confirmados de previsões. Os planos industriais podem sofrer atrasos, alterações de localização ou mudanças de dimensão antes de atingirem a produção em série.

Os 1,5 milhões de veículos previstos para 2035 são, por isso, uma projeção e não capacidade industrial já contratada ou instalada.

A Europa tem fábricas disponíveis

A entrada de novos fabricantes acontece num momento desafiante para uma parte da indústria automóvel europeia.

A AlixPartners calcula que existam cerca de 2,5 milhões de unidades de capacidade anual subutilizada nas fábricas do continente. A consultora considera este cenário uma oportunidade para fabricantes chineses interessados em produzir localmente.

Em vez de construir sempre uma unidade industrial nova, uma marca pode recorrer a uma fábrica existente, contratar produção ou estabelecer uma parceria com outro grupo automóvel.

Este modelo permite potencialmente acelerar o início da produção e reduzir parte do investimento necessário.

Para a indústria europeia, porém, a questão não se resume ao número de automóveis que saem das linhas de montagem.

É igualmente importante perceber quanto valor fica efetivamente na Europa: onde são produzidas as baterias e restantes componentes, que fornecedores participam na cadeia e quantos postos de trabalho são criados localmente.

Montar um veículo na Europa recorrendo maioritariamente a componentes importados tem um impacto económico diferente de localizar uma parte substancial da cadeia de abastecimento no continente.

As marcas chinesas também estão a ganhar quota de mercado

A expansão industrial acompanha um crescimento comercial igualmente relevante.

A AlixPartners prevê que as vendas de veículos de marcas chinesas na Europa aumentem 25% em 2026, atingindo aproximadamente 2,3 milhões de unidades. A consultora estima ainda uma quota de mercado de 16% em 2030, considerando na sua análise europeia também a Rússia.

As projeções da S&P Global Mobility apontam na mesma direção, embora utilizem metodologias e horizontes temporais diferentes.

Segundo a empresa de análise, a quota das marcas chinesas no mercado europeu atingiu 5,8% em 2025, quase o dobro do valor registado em 2024, podendo aproximar-se de 15,5% em 2035.

A S&P Global Mobility estima ainda que cerca de 44% dos automóveis de fabricantes chineses vendidos na Europa em 2035 poderão ser produzidos na Europa ou na Turquia.

As diferentes projeções não produzem exatamente os mesmos números, mas convergem num ponto: a presença destas marcas deverá aumentar e uma parcela crescente dos veículos vendidos poderá ser fabricada mais perto do consumidor europeu.

Nem todos os carros chineses produzidos na Europa serão elétricos

A expansão das marcas chinesas começou por ganhar grande visibilidade através dos automóveis elétricos, mas limitar o fenómeno aos modelos 100% elétricos seria redutor.

Os fabricantes estão a diversificar as motorizações oferecidas na Europa, com especial atenção aos híbridos e híbridos plug-in.

A S&P Global Mobility considera esta diversificação um dos fatores que está a acelerar a aceitação das marcas chinesas no continente. Além dos elétricos, a oferta crescente de híbridos e híbridos plug-in permite às marcas competir em segmentos onde muitos consumidores ainda não pretendem passar diretamente para um automóvel totalmente elétrico.

Por isso, as futuras fábricas europeias poderão produzir veículos com diferentes tecnologias.

A localização industrial é uma estratégia de expansão da marca, e não exclusivamente uma resposta ao mercado dos automóveis elétricos.

Produzir na Europa significa que deixam de ser carros chineses?

Linha de montagem de veículos eléctricos com robots industriais, simbolizando a modernização da produção automóvel na Europa

Não exatamente.

A nacionalidade de uma marca e o país de produção de um automóvel são conceitos diferentes.

Esta situação já é habitual na indústria. Muitas marcas europeias fabricam automóveis fora do país onde nasceram e vários modelos vendidos em Portugal percorrem milhares de quilómetros desde a fábrica até chegarem ao mercado nacional.

Com o crescimento da produção de carros chineses na Europa, o mesmo acontecerá com fabricantes cuja sede e origem permanecem na China.

Um veículo de uma marca chinesa poderá ser concebido através de equipas distribuídas por vários países, utilizar componentes de diferentes origens e ser montado numa fábrica europeia.

É precisamente por isso que o conceito de “carro chinês” poderá tornar-se menos simples durante a próxima década.

O que poderá mudar para quem compra carro em Portugal?

Não existe evidência suficiente para afirmar que esta expansão resultará diretamente em automóveis mais baratos em Portugal.

Produzir mais perto do mercado pode reduzir determinados custos logísticos e evitar algumas barreiras associadas à importação, mas o preço final depende de muitos outros fatores: estratégia comercial, fiscalidade, equipamento, custos de produção, concorrência e margens de cada fabricante.

Por isso, seria precipitado concluir que um automóvel produzido na Europa será necessariamente mais barato.

Existem, contudo, outras consequências possíveis.

Uma presença industrial mais forte pode contribuir para cadeias de fornecimento europeias mais desenvolvidas, maior disponibilidade de componentes e uma relação mais próxima entre fabricantes, distribuidores e mercados locais.

Para o comprador português, será também cada vez mais relevante olhar para cada automóvel individualmente — segurança, assistência, garantia, rede pós-venda, disponibilidade de peças, eficiência e valor — em vez de tirar conclusões apenas com base no país de origem da marca.

1,5 milhões em 2035 ainda são uma previsão

O número que está a chamar a atenção deve ser colocado em contexto.

Os 1,5 milhões de carros chineses produzidos anualmente na Europa em 2035 não representam uma meta oficial da União Europeia nem um volume de produção já garantido pelas marcas.

É uma projeção da Mobility Global baseada na evolução esperada dos projetos industriais e da procura. A mesma previsão aponta para cerca de 90 mil unidades em 2026 e um milhão em 2030.

Há quase uma década entre a realidade atual e o horizonte de 2035. Nesse período podem mudar tarifas, regulamentação europeia, procura por automóveis, estratégias das marcas e até alguns dos projetos industriais atualmente anunciados.

Outras análises reforçam, porém, a direção geral desta tendência. A AlixPartners estima que os fabricantes chineses pretendem quase triplicar a produção fora da China até 2030 e identifica a Europa e a América Latina como duas das regiões centrais desta expansão.

Mais importante do que saber se o número final será exatamente 1,5 milhões é perceber a mudança de estratégia que já está em curso.

De exportar carros para produzir onde são vendidos

Durante os últimos anos, o crescimento das marcas chinesas na Europa esteve associado sobretudo ao aumento das importações. A próxima fase poderá ser bastante diferente.

A criação de fábricas, a utilização de capacidade europeia existente e as parcerias com fabricantes locais apontam para uma estratégia de implantação industrial de longo prazo.

A produção de carros chineses na Europa poderá chegar a um milhão de unidades anuais já em 2030 e, segundo as projeções da Mobility Global, atingir 1,5 milhões em 2035. Ao mesmo tempo, outras análises antecipam que estas marcas continuem a aumentar a sua quota no mercado europeu.

Para Portugal, o impacto mais imediato deverá chegar através do próprio mercado europeu e da proximidade à indústria automóvel espanhola. Não há, neste momento, evidência suficiente para antecipar uma vaga equivalente de fábricas chinesas em território português.

Mas uma coisa parece cada vez mais provável: nos próximos anos, encontrar uma marca chinesa num automóvel deixará de significar necessariamente que esse carro foi fabricado na China.

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