Muito se fala da falta que os microchips fazem nas linhas de montagens dos automóveis. Mas a indústria, conhecida pela sua capacidade de adaptação, parece ter virado a página. E, no meio de um cenário aparentemente catastrófico, encontrou saídas que levam a caminhos onde não faltam vantagens.

A escassez de semicondutores ameaça parar o mundo. Assim: sem mais nem menos. E se esta parece uma conclusão precipitada ou mesmo exagerada, basta olhar com alguma atenção para o que nos rodeia para percebermos que o nosso quotidiano é feito de semicondutores: são eles que nos deixam estar ligados ao mundo através dos nossos “smartphones”, que nos permitem saber o que se passa com o nosso automóvel, ao serem responsáveis pelo bom funcionamento da unidade central de processamento. Mas também por coisas mais básicas, como o frigorífico que nos mantém os alimentos em boas condições ou pela máquina de café que nos ajuda a acordar de manhã.

Ainda não parece estarmos destinados a regressar ao método da salga, mas a ausência de semicondutores já começou a refrear alguns avanços, nomeadamente na indústria automóvel, que nunca esteve tão dependente de microchips como hoje. De tal maneira, que há marcas que, para não pararem de vender carros, puseram de parte os painéis digitais e voltaram aos velhinhos analógicos. Até se podia pensar que se trata de uma onda revivalista, tão em voga. Mas não: é uma espécie de regresso ao passado que muitos defendem como a única solução viável para que o planeta subsista.

Mas como chegámos aqui? As construtoras acusam as fábricas de microchips, na maioria sediadas no Sudeste Asiático, assim como a pandemia de covid-19. E se, por um lado, têm razão, por outro, importa viajar até há ano e meio para perceber o que de facto levou a que os microchips perdessem a viagem até às fábricas de automóveis.

Apanhados nos confinamentos

Assim que a pandemia foi decretada pela Organização Mundial da Saúde e os casos começaram a subir drasticamente, a grande maioria dos Governos decidiu confinar a população às suas casas, o que obrigou ao encerramento das linhas de produção automóvel. Algumas marcas, aliás, ofereceram as suas instalações para o fabrico de ventiladores, que se tornaram essenciais para salvar vidas.

Problema: alguém decidiu que devia cancelar encomendas a fornecedores, nomeadamente aos que eram responsáveis pelos semicondutores. Do outro lado, dada a procura, esfregaram-se as mãos: se a indústria automóvel não precisava de microchips, havia outras que pagavam a peso de ouro por os ter, como todas as ligadas a material informático e de comunicações que, com a imposição do teletrabalho, viram os seus stocks a esvaziar. Quem não se lembra de precisar de uma webcam e de não encontrar nenhuma por menos de uma fortuna, ao mesmo tempo que as prateleiras dos portáteis foram subitamente esvaziadas?

E eis que encontramos a primeira pedra na engrenagem: o cancelamento de encomendas atirou os fabricantes de automóveis para o fim da fila. E, quando as linhas de montagem voltaram a mexer e as marcas decidiram reativar as encomendas de semicondutores, encontraram a indústria de microchips totalmente assoberbada de trabalho, lamentando não poder dar resposta, mas apontando o dedo a quem cancelou as encomendas meses antes.

Os maiores grupos, como a japonesa Toyota, a alemã Volkswagen ou a norte-americana GM, voltaram-se para os seus governos a pedir uma intervenção com carácter de urgência. Afinal, linhas paradas implica redução de turnos o que significa corte de pessoal – e um consequente aumento dos níveis de desemprego. Mas por mais intervenções diplomáticas que fossem feitas, nada havia a fazer. Os gigantes dos microchips, concentrados na Coreia do Sul, Japão, Malásia, Taiwan ou Vietname, até gostavam de poder ajudar, mas não dispunham de meios de aumentar a capacidade de produção, que se transformou na segunda pedra a atrapalhar o esquema.

Enquanto isso, meio mundo parecia nem perceber o que se passava, a achar que isto era apenas um problema do sector automóvel. Até surgir a terceira pedra na engrenagem. Um novo surto de covid-19 atingiu o Sudeste Asiático e as consequências não se fizeram esperar: novos confinamentos que selaram países e colocaram os seus cidadãos em total e absoluta clausura.

Caso da Tailândia e do Vietname, regiões fortemente afetadas pela variante Delta do coronavírus que virou o mundo ao contrário no início do ano passado. Paralelamente, na China, surtos da doença obrigaram ao encerramento de alguns portos de contentores, nomeadamente aquele que é tido como dos mais movimentados portos do mundo. E, mesmo depois de as restrições serem levantadas, os contentores amontoam-se, com mercadorias que deveriam ter chegado aos seus destinos no verão e que permanecem no que parece uma interminável fila. Para piorar o cenário, o preço do transporte marítimo disparou, o que se irá refletir mais dia menos dia nos preços ao consumidor.

Vantagens ao virar da esquina

Posto isto, até parece que o mundo automóvel está por um fio. Mas isso não é verdade. E onde outras indústrias poderiam somente encontrar problemas, a indústria automóvel vai em busca de soluções que, a médio prazo, poderão revelar que esta crise, como qualquer outra, gerou também as suas oportunidades.”

A Tesla, por exemplo, conseguiu evitar ser demasiado afetada pela escassez de chips através da adoção de microcontroladores e do desenvolvimento de novo firmware para trabalhar com novos chips de diferentes fornecedores. E Elon Musk já veio garantir que, graças às novas fábricas de semicondutores que estão planeadas ou em construção, a escassez global de chips que tem abalroou a indústria automóvel não veio para ficar.

Já o Grupo Volkswagen, como parte da sua “Estratégia 2030”, pretende desenvolver os seus próprios microchips para, por um lado, escapar à dependência de terceiros em componentes tão essenciais e, por outro, desenvolver processadores personalizados de alto desempenho. Para tal, a empresa pretende contratar 200 peritos em design de chips, que servirão para alimentar os sistemas de condução semiautónoma.

Já a Mercedes-Benz da Daimler, o maior fabricante de automóveis de luxo do mundo, estabeleceu uma parceria com a Nvidia para desenvolver chips para características sofisticadas como condução autónoma e sistemas de info-entretenimento baseados em Inteligência Artificial.

Por isso, pode dizer-se que, ao invés de fechar uma porta, a indústria tem vindo a abrir janelas sem fim que, depois de ultrapassado este período negro, a poderá deixar mais livre e capaz de dar resposta às necessidades dos vários mercados. E com um bónus: passado o período do investimento, com uma linha de fornecimento mais curta e interna, o custo dos semicondutores será previsivelmente mais baixo. E isso é verdadeiramente uma boa notícia!

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