Durante anos, poucas dúvidas pesaram tanto na decisão de comprar um carro elétrico como o receio em torno da bateria. Quanto tempo aguenta? Será preciso substituí-la ao fim de poucos anos? E o custo dessa substituição não acabará por deitar por terra a poupança prometida?
Estas perguntas continuam a pesar na decisão de muitos condutores, sobretudo de quem pondera comprar um veículo elétrico usado, onde o estado da bateria é um dos fatores mais importantes na avaliação do automóvel.
Os dados recolhidos à medida que os primeiros elétricos acumulam quilómetros começam, porém, a contrariar o pessimismo. O caso mais citado é o de Richard Symons, um britânico que vende carros elétricos usados e cujo Tesla Model 3, com cinco anos e perto de 400 mil quilómetros, continua a fazer viagens longas sem sobressaltos. Uma reportagem recente do Wall Street Journal destacou este caso como exemplo de uma tendência que começa a ser observada por especialistas e empresas que acompanham a evolução das baterias em utilização real: as baterias modernas estão a revelar uma durabilidade superior ao que muitos consumidores imaginavam. A pergunta deixou de ser apenas "quanto dura?" e passou a ser "o que faz uma durar mais?".
Vida útil da bateria de um carro elétrico
A vida útil da bateria de um carro elétrico não termina de forma abrupta. A bateria degrada-se gradualmente, perdendo capacidade e, com ela, autonomia ao longo de milhares de ciclos de carga. O indicador que traduz esse desgaste é o State of Health (SoH), ou seja, a "saúde" da bateria expressa em percentagem face à capacidade original.
Um estudo publicado em 2025 na revista científica Vehicles sublinha precisamente esta realidade. Avaliar e quantificar a degradação da bateria é essencial para conhecer o seu verdadeiro estado de saúde, um fator que influencia diretamente a longevidade, o desempenho e até a segurança do veículo.
Esse mesmo trabalho modela a degradação ao longo de 150 mil quilómetros de utilização e demonstra que fatores como a temperatura e o nível de carga influenciam significativamente o ritmo de envelhecimento da bateria. Isto significa que a vida útil da bateria de um carro elétrico depende menos da idade do veículo e mais da forma como foi utilizado e carregado ao longo do tempo.
Porque estão as baterias a durar mais do que se pensava?

A resposta está na evolução tecnológica. As primeiras gerações de veículos elétricos utilizavam químicas menos desenvolvidas e sistemas de refrigeração menos eficazes, o que originou alguns casos de degradação prematura que acabaram por marcar a perceção dos consumidores.
Hoje, o cenário é bastante diferente. As baterias atuais beneficiam de químicas mais avançadas, sistemas de gestão eletrónica (Battery Management System ou BMS) mais sofisticados e soluções de refrigeração que ajudam a manter as células dentro da temperatura ideal de funcionamento.
Também a investigação científica tem acompanhado esta evolução. Um estudo publicado em 2025 na revista Scientific Reports demonstra que já é possível prever o State of Health de uma bateria com elevada precisão através de modelos de inteligência artificial. Esta capacidade poderá facilitar a monitorização da bateria ao longo da sua vida útil e fornecer informação mais fiável a proprietários e compradores de veículos elétricos usados.
Tudo isto ajuda a explicar porque razão a vida útil da bateria de um carro elétrico está a superar muitas das previsões feitas quando esta tecnologia começou a generalizar-se.
O que pode acelerar a degradação da bateria?
Apesar dos avanços registados, todas as baterias sofrem degradação ao longo do tempo. A diferença está na velocidade com que esse processo acontece.
A investigação publicada na IEEE Access identifica como principais fatores de desgaste as temperaturas elevadas e a permanência prolongada com níveis de carga muito elevados. O estudo publicado na revista Vehicles chega a conclusões semelhantes, demonstrando que a temperatura, o estado de carga e os ciclos de utilização têm um impacto direto na degradação das baterias de iões de lítio.
Na prática, deixar o veículo estacionado durante muito tempo com a bateria totalmente carregada, sujeitá-lo frequentemente a temperaturas extremas ou recorrer de forma intensiva a carregamentos rápidos são hábitos que podem acelerar o desgaste.
O carregamento rápido prejudica a bateria?
É uma das perguntas mais frequentes entre quem pensa comprar um carro elétrico.
Os carregamentos rápidos fazem parte da utilização normal destes veículos e são particularmente úteis em viagens longas. No entanto, como implicam uma elevada transferência de energia num curto espaço de tempo, também aumentam a temperatura da bateria, um dos fatores associados à degradação.
Segundo o estudo publicado na IEEE Access, estratégias inteligentes de carregamento, que adaptam a potência às condições da bateria e da utilização do veículo, ajudam a reduzir esse desgaste.
Na prática, a recomendação passa por privilegiar o carregamento normal no dia a dia e reservar os carregamentos rápidos para situações em que são realmente necessários.
Como prolongar a vida útil da bateria?
Embora a tecnologia tenha evoluído significativamente, alguns hábitos continuam a fazer diferença na preservação da bateria.
Evitar manter o veículo durante longos períodos com a bateria totalmente carregada, reduzir as descargas completas frequentes, privilegiar carregamentos em corrente alternada sempre que possível e proteger o veículo de temperaturas extremas são algumas das recomendações mais consensuais entre fabricantes e investigadores.
O estudo da IEEE Access concluiu mesmo que uma estratégia de carregamento inteligente conseguiu reduzir a degradação da bateria em até 2,7% ao longo de apenas um mês de utilização, quando comparada com hábitos de carregamento convencionais.
O que deve verificar quem compra um carro elétrico usado?

À medida que cresce a oferta de veículos elétricos usados, a saúde da bateria torna-se um dos aspetos mais importantes a analisar.
Mais do que olhar apenas para a quilometragem, é aconselhável verificar o State of Health (SoH), indicador que estima a capacidade útil da bateria face ao seu estado original.
Também vale a pena confirmar se a bateria continua abrangida pela garantia do fabricante. Embora as condições variem entre marcas e modelos, muitos fabricantes oferecem garantias de oito anos ou até 160.000 quilómetros para a bateria de alta tensão, proporcionando uma proteção adicional durante uma parte significativa da vida útil do veículo.
Sempre que possível, é igualmente aconselhável conhecer o histórico de carregamentos e de manutenção do veículo, uma vez que estes fatores ajudam a compreender melhor o estado da bateria.
Vale a pena continuar a preocupar-se?
Os dados disponíveis traçam hoje um cenário mais positivo do que aquele que muitos consumidores ainda associam aos primeiros veículos elétricos.
A degradação da bateria continua a existir, mas acontece de forma gradual e depende de vários fatores, muitos dos quais podem ser mitigados graças à evolução da tecnologia e a hábitos de utilização mais adequados.
Ao mesmo tempo, começam a surgir cada vez mais exemplos de veículos elétricos que ultrapassam centenas de milhares de quilómetros mantendo uma autonomia compatível com uma utilização diária.
Os dados atualmente disponíveis não permitem afirmar que todas as baterias terão a mesma longevidade, mas apontam para uma conclusão importante: um dos maiores receios associados aos carros elétricos poderá estar a perder força à medida que a experiência prática acompanha a evolução da tecnologia.
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