“Como adaptar ao novo enquadramento da intermediação de crédito” - foi este o desafio lançado a um dos painéis do “Alta Rotação Standvirtual Summit 2026”, que decorreu esta Quinta-feira no Centro de Congressos do Estoril. A conversa moderada pelo jornalista Anselmo Crespo contou com: Vítor Gouveia, da Auto Gouveia e também em representação da APDCA (Associação Portuguesa do Comércio Automóvel); Duarte Pereira, da ASFAC (Associações de Instituições de Crédito Especializado); e Paulo Figueiredo, pela Cofidis Portugal.
De forma a enquadrar e a melhor explorar a temática “Desafios atuais e futuro da intermediação de crédito”, tal conferência foi antecipada por Fernanda Matias, coordenadora de área do Banco de Portugal.
O papel do intermediário de crédito: especialmente no dever de informação ao cliente
“Mais de 83% do crédito automóvel em Portugal foi feito através de intermediários de crédito”, explica Fernanda Matias, apresentando dados do Banco de Portugal que assinalam que “mais de 40% dos intermediários de crédito registados no BdP opera nos setores da venda e reparação automóvel”.
Ao contrário da regra seguida pela maioria das áreas abarcadas pela intermediação de crédito, onde a “intermediação de crédito permite aos clientes bancários terem melhores preços”, no caso do crédito automóvel, afirma a coordenadora do regulador português, “tipicamente, um consumidor paga mais por um crédito intermediado do que se o contratar diretamente na instituição”.
Assumindo uma “elevada carga burocrática na legislação que está em vigor”, é assinalado o “número significativo de incumprimento de normas”, em particular dos deveres de informação.
Neste ponto em particular, reforça Fernanda Matias, os intermediários de crédito têm uma “responsabilidade acima de tudo na prestação e transparência da informação, essenciais para a proteção do cliente e consumidor, para que tome a decisão esclarecida do compromisso financeiro” – que pode ser bastante duradouro e, também por isso, obriga a que esta “consciente de todos os elementos do crédito”.
Para esta venda esclarecida o mais possível, é também explicada a necessidade do “dever de consulta de um número mínimo de mutuantes”. Isto para assegurar que “há uma escolha real” para o consumidor.
Sobre a remuneração dos intermediários, a coordenadora de área explica que o que se propõe é também “transparência”, não podendo esta “ficar dependente da taxa de juro apresentada ao cliente” – de maneira a que quanto maior fosse a taxa aplicada maior seria a remuneração que caberia aos intermediários. “Não estamos a proibir a remuneração”, esclarece.
“Quando o cliente entra no stand deposita em vós confiança na qualidade do veículo e de intermediação de crédito. Não são apenas agentes comerciais, são peças fundamentais para o consumidor. O Banco de Portugal quer continuar a trabalhar convosco”, aponta Fernanda Matias, terminando a sua apresentação.
Demasiada papelada para ajudar um consumidor “tontinho”?
“Sempre defendi que como consumidor sinto-me ofendido, estão a tratar-me como um tontinho. Sou um advogado e não leio essa informação toda, façam uma coisa mais simples”, pede, no debate que se sucede, Duarte Pereira.
“Nenhum de nós vive sem os clientes. Portanto, se temos um mau serviço, temos aqui um problema”, sublinha o representante da ASFAC (Associação de Instituições de Crédito Especializado) nesta conferência, apelando ainda a que seja repensada a formação dos trabalhadores do setor.
Pensando nas formações que existem em Lisboa e no Porto, afirma Duarte Pereira que “não faz sentido estarmos a mandar um stand automóvel ou de Tavira ou de Bragança” para tais localizações – no sentido de que, para além dos custos associados, “se todos os colaboradores foram levados para fazer formação” o stand poder-se-á ver obrigado a fechar e, sucessivamente, a perder potenciais negócios.
Em concordância com a perspetiva de que o consumidor é visto pelo sistema legislativo em vigor como alguém abaixo das suas reais capacidades cognitivas apresenta-se Vítor Gouveia, da Auto Gouveia.
Sublinha que “estamos num mercado livre” e que, por isso, “por vezes nem os intermediários de crédito têm as melhores condições, não tendo um produto de financiamento tão competitivo”. Mas, na opinião do também representante da APDCA (Associação Portuguesa do Comércio Automóvel), “o cliente é adulto, tem toda a informação através do FIN [Ficha de Informação Normalizada], pode comparar, pode recorrer à banca ou a outros créditos”. É, assim, uma escolha que cabe ao consumidor – que não deverá ser subvalorizado no ato da compra e contração de crédito.
“Há uma diferença entre colocar em prática o que a Europa quer e a realidade do mercado, não faz sentido dar 50 folhas às pessoas quando há outras formas de informar”, critica ainda Paulo Figueiredo, da Cofidis Portugal.
“Não devemos infantilizar o cliente final, os clientes entram nos stands e já têm um conjunto de dados, vão logo direito ao que querem e como querem fazer”, aponta, verificando que o que distingue se alguém vai “ao stand A ou B” é também a “componente do crédito” e capacidade de “garantir que existem condições para o processo”. “Nós conseguimos aprovar, financiar e que o carro saia do stand no mesmo dia. Não conheço um banco que faça isso – e isso tem um preço”, anota.
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