Apresentada nesta edição do IAA Transportation, em Hannover, a nova Renault Trafic Van E-Tech elétrica recebeu já o prémio International Van of the Year 2027. A distinção foi atribuída por unanimidade por um júri composto por 26 jornalistas especializados de outros tantos países europeus.
O prémio antecipa o lançamento comercial de uma geração profundamente renovada, desenvolvida de raiz como veículo elétrico e construída sobre uma nova plataforma. Além da evolução tecnológica, a Trafic estreia uma linguagem visual que marca uma rutura clara com o modelo atualmente em comercialização.
O para-brisas bastante inclinado, as superfícies mais trabalhadas e a configuração da dianteira dão-lhe uma aparência menos convencional para um veículo comercial. Dependendo do ângulo, as proporções aproximam-na de uma viatura de transporte de passageiros ou de lazer, seguindo uma tendência também adotada por outros comerciais elétricos recentes, como o Kia PV5.
Apesar desta evolução, a funcionalidade continua a ser um dos elementos centrais do projeto. O desenho recupera várias soluções apresentadas no conceito Renault Estafette, sobretudo na configuração dos grupos óticos e na assinatura luminosa dianteira, adaptando-as às exigências de um modelo de produção.
A transformação prolonga-se ao habitáculo. Embora não tenha sido possível entrar na cabine durante a apresentação em Hannover, as imagens divulgadas pela marca mostram um interior alinhado com os Renault mais recentes. O painel central está ligeiramente orientado para o condutor e combina uma apresentação mais próxima da de um automóvel de passageiros com materiais pensados para uma utilização profissional intensiva.
Há, por isso, vários plásticos visíveis e superfícies de aspeto resistente, uma escolha coerente com as necessidades de um veículo comercial. A aposta passa por melhorar a apresentação e a tecnologia disponível sem comprometer a durabilidade, a facilidade de utilização e a manutenção do habitáculo.
Altura inferior a 1,90 metros
Com 1,89 metros de altura, a Trafic E-Tech foi concebida para entrar na maioria dos parques de estacionamento subterrâneos convencionais. É uma característica particularmente relevante para profissionais que trabalham em ambiente urbano, onde as limitações de altura continuam a condicionar a utilização de alguns veículos comerciais.
A zona de carga pode oferecer até 5,8 metros cúbicos de volume e transportar três europaletes. A Renault anuncia ainda uma carga útil máxima de 1,3 toneladas e uma capacidade de reboque de até duas toneladas.
A nova plataforma foi desenvolvida para receber diferentes configurações e transformações. Em Hannover, a Renault apresentou, além do furgão, uma versão mista com seis lugares e uma configuração chassis-cabina. Outros expositores presentes no evento mostraram também diferentes adaptações baseadas no novo modelo, refletindo a importância deste tipo de flexibilidade no setor dos veículos comerciais.
Uma eventual versão de nove lugares não está, para já, prevista nos planos da marca.
Uma plataforma criada de raiz para veículos elétricos

A nova Trafic E-Tech não resulta da conversão de um modelo originalmente desenvolvido para motores de combustão. É construída sobre a plataforma RGEV, criada especificamente para veículos comerciais elétricos.
A diferença face à geração anterior é significativa. A anterior Trafic elétrica partilhava grande parte da sua base com as versões térmicas, o que limitava a otimização do espaço, da eficiência e da integração dos componentes elétricos. Com a nova arquitetura, a Renault pôde definir desde o início a localização da bateria, dos motores e dos restantes sistemas.
A marca anuncia mais de 470 quilómetros de autonomia em utilização combinada e até 690 quilómetros em ciclo urbano. A arquitetura elétrica de 800 volts permitirá recuperar até 280 quilómetros de autonomia em 20 minutos. Em utilização urbana, a Renault refere que a energia carregada no mesmo período poderá representar até 380 quilómetros.
Estes valores terão ainda de ser confirmados em condições reais. Ainda assim, a combinação entre autonomia e carregamento rápido procura responder a uma das principais preocupações dos operadores profissionais: reduzir o tempo de imobilização durante o horário de trabalho.
Outro dos números destacados pela Renault é o diâmetro de viragem de 10,3 metros, semelhante ao de um Renault Clio. A capacidade de manobra beneficia da colocação dos motores no eixo traseiro e poderá facilitar a circulação em ruas estreitas, parques de estacionamento e zonas de carga e descarga.
A nova Trafic ainda não foi conduzida neste primeiro contacto, pelo que será necessário esperar por um ensaio para avaliar o comportamento, o conforto e a agilidade anunciada pela marca.
Primeiro comercial europeu com arquitetura SDV
A Trafic E-Tech será o primeiro modelo do Grupo Renault e, segundo o fabricante, o primeiro veículo comercial ligeiro na Europa a adotar uma arquitetura Software-Defined Vehicle, ou SDV.
Em vez das cerca de 80 unidades de controlo eletrónico utilizadas numa arquitetura convencional, o sistema concentra a gestão das diferentes funções do veículo em dois computadores centrais. Esta solução permite realizar atualizações remotas e acrescentar ou melhorar funcionalidades ao longo da vida útil da carrinha.
A arquitetura foi também pensada para responder às necessidades específicas das empresas. A Renault prevê permitir a integração de aplicações próprias no sistema do veículo, reduzindo, em alguns casos, a necessidade de instalar equipamentos adicionais. Uma empresa poderá, por exemplo, ligar diretamente à carrinha software de gestão de frota, logística ou acompanhamento de operações.
Esta abordagem pretende tornar a Trafic mais adaptável a diferentes atividades profissionais, embora a sua utilidade dependa da facilidade de implementação e da compatibilidade com os sistemas utilizados por cada operador.
Renault Uptimize pretende reduzir imobilizações
A componente digital inclui ainda o Renault Uptimize, um conjunto de serviços conectados com lançamento previsto para 2027. Através dos dados recolhidos pelo veículo, o sistema deverá permitir antecipar intervenções de manutenção, realizar diagnósticos à distância e reduzir o período de imobilização das viaturas.
Segundo a Renault, o Uptimize poderá diminuir esse tempo em até 50%. Para empresas com várias viaturas em circulação, a disponibilidade operacional pode ter um impacto direto na produtividade e nos custos, sobretudo quando uma avaria obriga a retirar um veículo de serviço.
A marca estima igualmente que a Trafic E-Tech possa apresentar um custo total de utilização até 10% inferior ao de um furgão médio equivalente com motor de combustão. Trata-se de uma projeção que dependerá do perfil de utilização, dos custos de energia, da quilometragem percorrida e das condições de aquisição e manutenção.
Prémio antes da chegada ao mercado

A adaptabilidade da plataforma, a possibilidade de reduzir o tempo de imobilização através do Uptimize e a previsão de um custo total de utilização inferior estão entre os principais argumentos apresentados pela Renault nesta fase.
A estes junta-se o título de International Van of the Year 2027, atribuído ainda durante o IAA Transportation. A decisão unânime do júri dá à nova Trafic E-Tech uma primeira validação internacional, numa altura em que o modelo ainda não chegou ao mercado.
O contacto em Hannover permitiu conhecer o desenho, as diferentes configurações e as principais soluções técnicas, mas falta ainda avaliar a nova Trafic em estrada. Autonomia, carregamento, capacidade de manobra, conforto e integração dos serviços digitais serão aspetos decisivos para perceber se esta nova abordagem se traduz em vantagens concretas para os profissionais.
A Renault alterou profundamente a fórmula da Trafic, tanto ao nível da imagem como da plataforma e da tecnologia. Resta agora confirmar se essa transformação permite cumprir o objetivo essencial de qualquer veículo comercial: trabalhar de forma eficiente, previsível e com o menor tempo de paragem possível.
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