A Volkswagen está a preparar uma mudança importante na forma como desenvolve os seus automóveis. Depois de décadas a levar tecnologia alemã para o mercado chinês, o fabricante vai agora fazer o caminho inverso: utilizar soluções desenvolvidas na China em veículos destinados a outros mercados.

A decisão foi anunciada a 28 de outubro de 2026 e reflete a crescente importância da indústria automóvel chinesa no desenvolvimento de plataformas, software e sistemas eletrónicos.

Mas há uma questão particularmente relevante para os condutores portugueses: será que os futuros Volkswagen vendidos na Europa também vão utilizar esta tecnologia?

Volkswagen vai utilizar tecnologia chinesa em novos modelos

A Volkswagen confirmou que pretende utilizar a sua Compact Main Platform (CMP), associada à China Electronic Architecture (CEA), em futuros automóveis destinados a mercados internacionais.

Estas soluções foram desenvolvidas no centro de investigação e desenvolvimento do grupo em Hefei, na China, em colaboração com empresas tecnológicas locais.

Segundo a Reuters, a expansão deverá começar pela América do Sul até ao final da década, estando também previstos outros mercados, nomeadamente em África.

Trata-se de uma alteração significativa à estratégia que a Volkswagen vinha a seguir. Até agora, a prioridade era desenvolver veículos especificamente adaptados ao mercado chinês, através da abordagem conhecida como In China, for China.

Com esta decisão, a China deixa de ser apenas um mercado para o qual a Volkswagen desenvolve automóveis e passa a assumir um papel mais importante na criação de tecnologia destinada a outros países.

A parceria com a XPeng está no centro desta transformação

Uma das peças fundamentais desta estratégia é a colaboração entre a Volkswagen e a XPeng, fabricante chinês especializado em automóveis elétricos e tecnologias digitais.

As duas empresas têm trabalhado no desenvolvimento de uma arquitetura eletrónica capaz de suportar diferentes plataformas e sistemas de propulsão.

Esta arquitetura permite integrar e coordenar funções eletrónicas do veículo, desde os sistemas de assistência à condução até às funcionalidades digitais disponíveis no habitáculo.

O objetivo é simplificar o desenvolvimento de novos modelos e tornar mais rápida a introdução de atualizações e funcionalidades.

De acordo com a Volkswagen, a nova arquitetura eletrónica permite reduzir em até 30% o número de unidades de controlo eletrónico, contribuindo para diminuir a complexidade dos sistemas.

O fabricante estima ainda que o seu modelo de desenvolvimento localizado na China possa reduzir os prazos de desenvolvimento em até 30%.

Para um grupo com a dimensão da Volkswagen, esta redução pode representar uma vantagem importante num mercado em que as marcas chinesas têm conseguido lançar novos automóveis a um ritmo particularmente elevado.

Novos Volkswagen terão tecnologia de carregamento de 850 volts

Volkswagen ID. num cenário urbano europeu, representando a transformação tecnológica do grupo alemão

A Volkswagen anunciou também uma nova solução tecnológica denominada VEGA, que inclui uma arquitetura de carregamento de 850 volts e preparação para sistemas de condução automatizada de nível 3.

O lançamento está previsto para 2027.

A arquitetura elétrica de elevada tensão poderá permitir o desenvolvimento de sistemas de carregamento mais rápidos, embora a Volkswagen ainda não tenha divulgado todos os dados necessários para determinar os tempos de carregamento dos futuros modelos.

Já a preparação para condução automatizada de nível 3 representa outro passo no desenvolvimento tecnológico da marca.

Neste nível de automação, o veículo pode assumir determinadas tarefas de condução em condições específicas, mas continua a ser necessário que o condutor esteja disponível para retomar o controlo quando solicitado.

Importa distinguir a preparação tecnológica da disponibilidade efetiva da funcionalidade, que depende também das condições de utilização, da homologação e da legislação aplicável.

E os Volkswagen vendidos em Portugal?

Para já, não existe confirmação de que os modelos Volkswagen comercializados em Portugal venham a utilizar a arquitetura eletrónica desenvolvida na China.

O anúncio de 28 de outubro identifica mercados como a América do Sul e África, mas não inclui a Europa nem a América do Norte nesta fase da expansão.

Contudo, a possibilidade de utilizar tecnologia chinesa em futuros automóveis europeus já está a ser discutida.

De acordo com informações avançadas pela Reuters a 26 de outubro, com base numa notícia da publicação alemã Manager Magazin, a Volkswagen estará a avaliar a utilização da arquitetura eletrónica desenvolvida com a XPeng em modelos de grande volume das marcas Volkswagen, Škoda e Cupra.

Esta hipótese poderia alterar a estratégia tecnológica do grupo na Europa, onde a Volkswagen mantém uma parceria com a norte-americana Rivian para o desenvolvimento de software e arquiteturas eletrónicas.

No entanto, a Volkswagen não confirmou oficialmente essa mudança.

Assim, ainda é prematuro afirmar que os próximos Volkswagen vendidos em Portugal terão tecnologia chinesa. O que está confirmado é que o grupo pretende aproveitar as soluções desenvolvidas na China para reforçar a sua competitividade internacional.

Porque está a Volkswagen a mudar de estratégia?

A decisão surge num momento particularmente exigente para a indústria automóvel europeia.

Durante muitos anos, os fabricantes alemães ocuparam uma posição dominante no mercado chinês, beneficiando da procura por marcas europeias e do crescimento da classe média.

Nos últimos anos, porém, o cenário alterou-se.

Fabricantes chineses como a BYD, a Geely e a XPeng ganharam protagonismo, sobretudo nas áreas da eletrificação, software, conectividade e tecnologias de assistência à condução.

A Volkswagen procura agora recuperar competitividade através de parcerias locais e de uma maior autonomia das suas operações de investigação e desenvolvimento na China.

O grupo pretende também aumentar as exportações de automóveis Volkswagen e Jetta produzidos naquele país para mercados da América do Sul e de África.

Esta estratégia poderá permitir aproveitar a capacidade industrial instalada na China e responder de forma mais competitiva às necessidades de mercados emergentes.

Uma mudança que pode influenciar toda a indústria automóvel

A Volkswagen não é o único fabricante tradicional a reconhecer a importância da tecnologia desenvolvida na China.

Outros grupos internacionais, incluindo a General Motors, a Hyundai e a Renault, têm vindo a recorrer às suas operações e parcerias chinesas para desenvolver soluções destinadas a diferentes mercados.

Durante décadas, a indústria automóvel chinesa beneficiou da experiência tecnológica dos fabricantes europeus, japoneses e norte-americanos.

Agora, algumas dessas empresas começam a olhar para a China como um centro de inovação capaz de contribuir para o desenvolvimento dos seus futuros veículos.

No caso da Volkswagen, a decisão já tem consequências concretas na sua estratégia internacional.

Resta saber até que ponto esta transformação chegará também aos automóveis vendidos na Europa. Para já, a utilização de tecnologia chinesa em modelos comercializados em Portugal continua a ser uma possibilidade, não uma decisão anunciada.

Leia também:

Leia também