Se há uma década era impensável, nos primeiros seis meses do ano, uma em cada quatro pessoas, no momento de comprar carro novo, escolheu um elétrico, tornando Portugal como um dos exemplos europeus da mobilidade verde.
Portugal posiciona-se entre os mercados europeus com maior peso de veículos 100% elétricos nas vendas de automóveis novos. E, pela primeira vez, em Junho deste ano, os elétricos registaram mesmo a maior quota de mercado: 29% das matrículas, i.e., um automóvel matriculado a cada três, contra 24% de híbridos e 21% a gasolina.
No acumulado do ano, até Junho, segundo o relatório Market Insights , 1.º Semestre 2026, compilado pelo Standvirtual, Portugal fica até à frente do Reino Unido, que registou uma quota de elétricos de 23,9%, e muito acima de Espanha, onde os automóveis de zero emissões não foram além dos 9,5%. Ainda assim, o peso dos elétricos em território luso fica ainda a anos-luz da Noruega, onde o mercado dos elétricos representa uma quota impressionante de 98,1%.
O sucesso dos elétricos

A posição do país escandinavo explica-se pelas políticas fiscais: isenção de IVA e de impostos de importação, isenções ou descontos significativos nas portagens, nas tarifas dos ferries e nos parques de estacionamento públicos, e graças ao facto de o investimento na criação de uma rede densa de pontos de carregamento públicos e privados nas cidades, parques de estacionamento, centros comerciais e autoestradas ter acontecido cedo. Além disso, os 100% elétricos podem circular nas faixas de autocarro. E a geografia do país, de relevo pouco montanhoso, assim como o restritivo código de estrada (a velocidade máxima em autoestrada é de 110 km/h, e é respeitada) ajudam a que as autonomias anunciadas se aproximem (e por vezes até ultrapassem) a realidade.
Portugal tem seguindo políticas fiscais semelhantes e benefícios vários, nomeadamente no estacionamento público. No entanto, apesar de também ter apostado numa rede de carregamento cedo, a maioria dos postos rapidamente se tornaram obsoletos e outros avariaram-se ou foram vandalizados, o que obrigou a um reinvestimento, e a distribuição, no início desta década, era ainda insuficiente. Depois, num país de relevo acentuado, é difícil que as médias anunciadas se observem nos computadores de bordo. Talvez todos estes fatores em conjunto expliquem o facto de o país estar tantos degraus abaixo da Noruega. Mas outros indicadores explicam por que razão a quota de elétricos está a crescer , e, caso as políticas se mantenham, não se suspeita que este seja um fenómeno passageiro.
Primeiro, os elétricos apresentam-se cada vez mais preparados para um dia a dia sem ter de pensar constantemente em ligá-los à corrente, com autonomias que admitem a circulação quase com um único carregamento semanal. Depois, houve nos últimos anos um forte crescimento da rede de carregamento: em 2020, havia registo de menos de três mil postos em todo o território nacional; hoje, são quase 16 mil postos, dos quais mais de três mil de carregamento rápido ou ultrarrápido. Ou seja, se ir de Lisboa ao Porto era antes uma dor de cabeça, numa viagem que precisava de ser cautelosamente programada, atualmente o mesmo percurso faz-se com uma única carga ou com um breve paragem de dez minutos pelo caminho.
Por fim, uma espécie de cereja, ainda que envenenada. A guerra contra o Irão, que fechou o estreito de Ormuz e paralisou um dos principais corredores marítimos do crude mundial, colocou os preços dos combustíveis fósseis num patamar demasiado elevado para que possa ser ignorado na altura de decidir comprar carro novo, ou mesmo usado (já lá vamos). Por isso, não é de estranhar que o Market Insights , 1.º Semestre 2026, compilado pelo Standvirtual, conclua estar-se perante uma “transformação energética radical” do mercado nacional.
Elétricos lideram em junho
A posição de Portugal no contexto europeu foi reforçada em junho de 2026, quando os veículos 100% elétricos se tornaram a motorização mais vendida no país. Este crescimento parece ser feito à custa da falência das propostas a gasóleo, que representaram apenas 3% das escolhas no mercado novo em junho e 3,8% no acumulado do ano.
A razão é simples: se há uns anos os motores Diesel eram os mais apetecíveis, sobretudo para empresas, pelos benefícios fiscais, mas também pelo baixo preço do combustível (chegaram a ter uma quota de mercado superior a 70%), hoje empresas e empresários em nome individual conseguem obter até mais benefícios na aquisição de um 100% elétrico, com a vantagem de o custo de uso e manutenção ser muito mais baixo.
Onde os automóveis a gasóleo continuam à frente é no mercado dos usados, mas a tendência parece estar também do lado dos elétricos.
Procura por elétricos usadoscresce 68,7%

O avanço da eletrificação em Portugal também se reflete no mercado de usados acompanhado pelo Standvirtual. A procura por veículos 100% elétricos cresceu 68,7% no primeiro semestre de 2026, face ao período homólogo.
Os BEV passaram a representar 17,30% de toda a procura registada na plataforma, contra 11,47% um ano antes. Trata-se de um aumento de 5,83 pontos percentuais na quota de procura.
A eletrificação do mercado português é acompanhada pela redução do peso do gasóleo. Na procura de usados, esta motorização representava 49,22% no primeiro semestre de 2025 e passou para 42,59% em 2026, menos 6,63 pontos percentuais. Já a gasolina manteve-se praticamente estável, com uma quota de 30%, contra 30,04% um ano antes.
Preço continua a ser fator maldito nos elétricos
Apesar da posição de Portugal entre os mercados europeus mais eletrificados, o relatório do Standvirtual identifica o preço como um dos principais entraves à adoção dos veículos 100% elétricos. O valor médio dos elétricos anunciados por profissionais no Standvirtual manteve-se acima de 30 mil euros entre fevereiro de 2025 e junho de 2026.
Este nível de preço, explica-se, limita o acesso de muitos compradores e contribui para que parte do mercado continue a optar por híbridos ou motorizações de combustão. Mas até isto pode vir a mudar em breve: basta estar atento aos novos que vão surgindo por menos de 25 mil euros e que, quando chegarem ao mercado dos usados, poderão vir a revolucionar o mercado.
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