O preço médio dos carros usados anunciados por profissionais no Standvirtual atingiu 25.700 euros em junho de 2026, o valor mais elevado da série analisada nos Market Insights do primeiro semestre. À primeira vista, a conclusão parece evidente: comprar um automóvel usado está cada vez mais caro.

Mas os números contam uma história mais complexa.

Quando se elimina aquilo a que se chama “efeito mix”, ou seja, a influência provocada pela mudança das características dos automóveis que estão à venda, verifica-se precisamente o contrário. Comparando veículos com características equivalentes, o preço de referência caiu para 22.800 euros em junho, prolongando a tendência descendente observada ao longo dos primeiros seis meses de 2026.

Assim, a média está a subir, mas isso não significa necessariamente que o mesmo tipo de carro usado esteja mais caro.

Preço médio dos carros usados: porque chegou aos 25.700 euros?

Os dados dos Market Insights do Standvirtual mostram uma subida particularmente visível nos últimos meses do primeiro semestre.

Em fevereiro de 2025, o preço médio anunciado pelos profissionais encontrava-se nos 23.900 euros. Depois de algumas oscilações, alcançou 25.450 euros em setembro e terminou 2025 nos 25.000 euros.

O início de 2026 trouxe uma correção: janeiro e fevereiro registaram ambos uma média de 24.650 euros. A partir daí, o indicador voltou a subir: 24.750 euros em março, 25.000 em abril, 25.100 em maio e, finalmente, 25.700 euros em junho.

Face a junho de 2025, quando a média era de 24.650 euros, estamos perante um aumento de aproximadamente 4,3%.

Seria tentador interpretar estes números como prova de uma valorização generalizada dos usados. O problema é que uma média não mede apenas aquilo que aconteceu ao preço de cada automóvel. Também depende de quais são os carros que entram no cálculo.

E é precisamente aí que está a explicação.

O que é o efeito mix e porque altera o preço médio?

Imagine-se um exemplo simples. Num determinado mês existem sobretudo citadinos usados anunciados por 15.000 ou 20.000 euros. No mês seguinte entram no mercado muitos SUV recentes, automóveis premium e modelos eletrificados de 30.000 ou 40.000 euros.

Mesmo que o preço de cada modelo não tenha aumentado, ou até tenha diminuído, o preço médio de todos os anúncios pode subir, simplesmente porque o segundo grupo contém uma maior proporção de veículos caros.

É este fenómeno que o Standvirtual identifica como efeito mix.

Segundo os Market Insights, a composição do stock disponível mudou, com a entrada de veículos mais caros e de frotas mais jovens. Consequentemente, a média global é empurrada para cima.

Por isso, olhar exclusivamente para os 25.700 euros pode transmitir uma imagem incompleta da evolução do mercado.

Sem o efeito mix, os preços dos usados estão a descer

gráfico de evolução do preço médio de carros usados em Portugal nos últimos cinco anos

A diferença torna-se evidente quando se compara a média global com o indicador que procura neutralizar as alterações na composição da oferta.

Em fevereiro de 2025, o preço médio total era de 23.900 euros, enquanto o valor sem efeito mix se encontrava nos 23.600 euros. A distância era, portanto, de apenas 300 euros.

Em junho de 2026, a situação é muito diferente: a média global alcança 25.700 euros, mas o indicador sem efeito mix recua para 22.800 euros. A diferença entre ambos chega assim aos 2.900 euros.

Mais importante ainda é observar a direção das duas linhas.

Enquanto a média global aumentou durante a primavera de 2026, o indicador comparável passou de 23.100 euros em janeiro e fevereiro para 23.150 em março, 22.950 em abril, 22.900 em maio e 22.800 euros em junho.

Ou seja, o máximo de 25.700 euros não significa que um automóvel equivalente tenha ficado necessariamente mais caro. Os dados do Standvirtual apontam antes para uma redução dos preços quando se comparam veículos com características semelhantes.

É uma distinção importante para compreender o mercado de usados em Portugal.

A oferta começa também a ganhar terreno à procura

Há outro indicador que ajuda a perceber esta evolução: a relação entre oferta e procura.

No início de 2026, a procura continuava a crescer bastante mais depressa do que a oferta. Em janeiro, a procura aumentava 20,8% em termos homólogos, enquanto a oferta recuava 4,1%.

A diferença foi diminuindo ao longo dos meses.

Em junho, a procura cresceu 10,9% face ao mesmo mês do ano anterior, mas a oferta avançou ainda mais, 12%. A dinâmica entre ambas tornou-se, assim, ligeiramente negativa, em -1,5%.

Isto significa que a pressão que anteriormente favorecia a procura está a perder força. O mercado está a aproximar-se de um maior equilíbrio entre o número de veículos disponíveis e o interesse dos potenciais compradores.

E mais oferta relativamente à procura tende a aumentar a competição entre os vendedores.

Os carros abaixo dos 15.000 euros são um caso diferente

Esta tendência não é, contudo, igual em todos os segmentos.

Os automóveis abaixo dos 15.000 euros continuam a apresentar uma dinâmica particularmente forte. Em junho de 2026, a procura neste escalão crescia 25% em termos homólogos, enquanto a oferta aumentava apenas 4%.

O resultado aparece também no chamado Market Day Supply (MDS), indicador utilizado pelo Standvirtual para estimar o número médio de dias necessários para escoar o stock disponível.

Em junho, os carros abaixo dos 15.000 euros apresentavam apenas 38 dias de stock, contra 48 dias um ano antes. No segmento entre 15.000 e 30.000 euros, o indicador encontrava-se nos 56 dias e, nos automóveis acima de 30.000 euros, nos 60 dias.

Há, portanto, maior pressão no segmento mais acessível.

Para quem procura um usado económico, isto significa que a descida global dos preços comparáveis não deve ser interpretada como garantia de que todos os carros estão a ficar mais baratos ao mesmo ritmo.

Então, os carros usados estão mais caros ou mais baratos?

montagem com diferentes tipos de carros usados representativos do mercado português, incluindo SUV, eléctrico e gasóleo

A resposta depende daquilo que se pretende medir.

Se a pergunta for “qual é o preço médio dos automóveis usados anunciados?”, então sim: o indicador do Standvirtual atingiu 25.700 euros em junho de 2026, o máximo da série apresentada.

Se a pergunta for “um carro com características equivalentes está mais caro do que há alguns meses?”, os mesmos dados apontam na direção contrária.

Retirando o efeito da alteração da composição do stock, o preço passou de 23.100 euros em janeiro para 22.800 euros em junho, uma redução de cerca de 1,3% no primeiro semestre. Comparando junho de 2026 com junho de 2025, quando este indicador se encontrava nos 23.300 euros, a descida é de aproximadamente 2,1%.

É por isso que uma média isolada deve ser interpretada com cautela.

Um carro de 25.000 euros não passou automaticamente a custar 25.700

Para quem está a pensar comprar ou vender um automóvel, esta é provavelmente a consequência mais importante dos dados.

O aumento do preço médio não significa que todos os carros usados tenham valorizado. Nem significa que um automóvel anunciado por 20.000 euros há alguns meses deva agora valer proporcionalmente mais.

O preço de um usado continua a depender de fatores como idade, quilometragem, versão, motorização, equipamento, estado de conservação, histórico e, naturalmente, da oferta e procura existente para aquele modelo.

A própria metodologia dos índices de preços ajuda a perceber porque é importante comparar produtos equivalentes. O Eurostat explica que os índices harmonizados de preços procuram medir alterações “puras” dos preços e, por isso, têm de considerar mudanças na qualidade dos produtos ao longo do tempo. No caso português, o índice é compilado pelo INE e inclui recolha centralizada de preços de automóveis novos e usados.

Embora esta metodologia estatística não seja a mesma utilizada nos Market Insights do Standvirtual, o princípio ajuda a perceber o problema: comparar médias de grupos cuja composição muda pode confundir alteração de preço com alteração do próprio produto analisado.

O mercado de usados está a entrar numa nova fase?

Os dados do primeiro semestre sugerem sobretudo uma estabilização.

A procura continua acima dos níveis de 2025, mas a oferta recuperou e, em junho, cresceu ligeiramente mais depressa. Ao mesmo tempo, o preço dos veículos comparáveis apresenta uma trajetória descendente, apesar do máximo registado pela média global.

Também não existe uma única realidade dentro do mercado: os veículos abaixo de 15.000 euros continuam particularmente disputados, enquanto os segmentos superiores apresentam mais dias de stock.

O resultado é um mercado em que dois fenómenos aparentemente contraditórios podem acontecer simultaneamente: os carros disponíveis podem ser, em média, mais caros e, ao mesmo tempo, veículos equivalentes podem estar a baixar de preço.

É precisamente isso que os 25.700 euros de junho ajudam a demonstrar.

O número é real. A conclusão de que “os usados estão todos mais caros” é que não decorre dos dados.

Limite dos dados: os valores de preço analisados pelo Standvirtual dizem respeito aos anúncios de profissionais presentes na plataforma e não devem ser interpretados como o preço médio de todas as transações de automóveis usados realizadas em Portugal.

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