Ferrari Luce: primeiro elétrico da marca italiana chega com 1050cv e muita polémica

A Ferrari escolheu um lugar carregado de simbolismo para revelar o Luce: Roma, cidade onde a marca alcançou a sua primeira vitória, em 1947, quando o Ferrari 125 S venceu o Grande Prémio de Roma no Circuito das Termas de Caracalla. Agora, quase oito décadas depois, a marca escreve um novo capítulo da sua história.
O primeiro Ferrari 100% elétrico chega com a ambição de inaugurar uma nova família de modelos, sem substituir os motores que continuam a fazer parte da estratégia multienergia de Maranello. A mensagem é clara: o Luce não é apenas “mais um elétrico”, mas uma tentativa deliberada de redefinir o que pode ser um Ferrari na era da eletrificação.
Do ponto de vista técnico, o novo modelo assenta numa plataforma dedicada, surgindo com quatro motores síncronos de ímanes permanentes, um por roda, alimentação a 800 V e uma bateria de 122 kWh concebida e construída em Maranello. O resultado, segundo os dados divulgados pela Ferrari, é uma potência máxima de 1050 cv, 990 Nm de binário e uma aceleração de 0 a 100 km/h em 2,5 segundos. A velocidade máxima ultrapassa os 310 km/h, enquanto a autonomia estimada é superior a 530 km.
Cada roda, um mundo
A Ferrari sublinha que o projeto foi desenhado à volta da experiência de condução, e não apenas da eficiência energética. Um dos elementos mais relevantes é o sistema de controlo integral de cada roda, com gestão independente de tração, regeneração, direção e movimento vertical.
Esta arquitetura permite a vetorização de binário em ambos os eixos, quatro rodas motrizes e uma suspensão ativa derivada dos mais recentes desenvolvimentos da marca. Na prática, a Ferrari promete maior precisão em curva, respostas mais naturais e uma capacidade de adaptação dinâmica pouco comum num automóvel elétrico de alto desempenho.
Emoção preservada
Outro ponto central é a forma como a marca procurou preservar o envolvimento emocional. O Luce estreia um sistema de som descrito pela Ferrari como autêntico e funcional, baseado na captação das vibrações mecânicas dos componentes elétricos e não numa simulação artificial.
O conceito é acompanhado por patilhas no volante que não reproduzem mudanças de caixa, mas regulam níveis de força e de travagem regenerativa, oferecendo ao condutor uma interação mais física com a entrega de potência. A marca chama a este conjunto Torque Shift Engagement, uma solução pensada para transformar a resposta típica dos elétricos numa experiência mais progressiva e “ferrarista”.
Design de linhas limpas
No capítulo do design, o Luce também rompe com a tradição sem a abandonar totalmente. O projeto foi desenvolvido em colaboração com a LoveFrom, o coletivo fundado por Jony Ive e Marc Newson, algo inédito na história recente da Ferrari. O resultado é uma carroçaria de linhas limpas, com forte aposta na pureza formal, numa “glass house” pronunciada e em elementos aerodinâmicos suspensos, que procuram combinar eficiência com uma presença visual distinta.
Pela primeira vez em quase 90 anos, a Ferrari exibe no seu catálogo um modelo de quatro portas e cinco lugares, o que alarga a vocação do automóvel e o aproxima de um GT de luxo com pretensões desportivas mais amplas.
Um aceno discreto ao Ferrari Mondial
Há um eco na fórmula do Luce que merece destaque. A ideia de um Ferrari pensado para mais do que dois ocupantes não é inédita em Maranello: entre 1980 e 1993, o Mondial cumpriu esse papel com motor V8 central e configuração 2+2, afirmando-se como o modelo mais utilizável do catálogo, ainda que muitas vezes criticado pela falta da agressividade típica dos seus irmãos de gama. O Luce retoma essa filosofia de versatilidade e leva-a um passo mais longe. Onde o Mondial se ficava pelos quatro lugares, tal como o atual Purosangue, o novo elétrico estreia uma configuração inédita de cinco lugares e quatro portas, viabilizada pela arquitetura compacta do trem motriz elétrico.
A ligação ao passado prolonga-se para o habitáculo. O trabalho da LoveFrom, o estúdio fundado por Jony Ive, foi declaradamente inspirado nos desportivos clássicos das décadas de 1970 e 1980, exatamente o período em que nasceu o Mondial. Daí a presença de botões em alumínio maquinado e interruptores com toque analógico, numa tentativa de recuperar a tactilidade física dos automóveis dessa era, em contracorrente face aos habitáculos atuais dominados por superfícies táteis. As semelhanças, no entanto, ficam por aqui: enquanto o Mondial assentava num V8 atmosférico, o Luce mobiliza quatro motores elétricos, um por roda, com 1050 cv combinados e os 0 aos 100 km/h despachados em 2,5 segundos. Registos impensáveis para qualquer GT dos anos 80.
Habitáculo tecnológico, mas não só
O habitáculo segue a mesma lógica de síntese entre tecnologia e controlo físico. A Ferrari mantém botões, seletores e comandos táteis, mas integra-os com novos ecrãs OLED, um quadro de instrumentos multimodal e materiais de forte carga premium, como alumínio reciclado, vidro de elevada resistência e pele. A marca insiste na clareza funcional da interface, com os comandos essenciais concentrados em frente ao condutor e um nível de integração pensado para não sacrificar a ligação entre homem e máquina.
Em termos estruturais, o Luce também representa uma evolução relevante. A bateria integra-se na estrutura do chassis, contribuindo para a rigidez e para a redução do centro de gravidade , e, muito importante, elimina o túnel central e melhora a habitabilidade.
A piscar o olho ao ambiente
A Ferrari afirma ainda que o carro foi desenvolvido com uso intensivo de alumínio reciclado, reduzindo em cerca de 70% as emissões de dióxido de carbono equivalente associadas à produção de grande parte do veículo. Para os clientes, há ainda manutenção coberta durante sete anos e garantia específica de oito anos para os principais componentes elétricos.





