Reprogramar carros elétricos

5 min

É possível reprogramar carros elétricos?

Não há volta a dar: o carro elétrico será mesmo uma realidade, sobretudo depois de 2035, ano em que Bruxelas passará a permitir apenas a comercialização de veículos ligeiros de passageiros novos com zero emissões. Mas teremos de nos contentar com os automóveis que nos vendem?

A verdade é que não, uma vez que todo o software do veículo pode ser reprogramado. Isto é muito útil quando se trata de corrigir algum erro de código, mas é cada vez mais usado para aumentar a potência.

Reprogramação automóvel

A possibilidade não veio com os elétricos. Desde há muito tempo que os carros com mecânicas térmicas também podem ser reprogramados para exibir desempenhos mais expeditos. No entanto, enquanto que num carro a gasolina ou a gasóleo, o aumento de potência não vai além dos 25% da anunciada pelo fabricante, tendo consequências diretas nos consumos e nas emissões de gases poluentes, no caso de um carro elétrico o desempenho pode duplicar! Sim, leu bem – é possível comprar um Renault Zoe de 80 kW, que corresponde a 109 cv, e reprogramá-lo para ter um carro com 1500 quilogramas e mais de 200 cv, isto é, cerca de 1 cv por cada 7,5 quilogramas!

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Isto acontece pelo facto de no elétrico não se ter de trabalhar o binário, totalmente disponível a partir de zero rotações, ao contrário daquilo a que se assiste nos motores de combustão interna, que carecem de atingir uma determinada rotação para mostrarem a sua força.

Quais as consequências de reprogramar um carro elétrico?

A reprogramação de um automóvel não é rosa sem espinhos. Mais potência implica maior consumo de energia, o que se irá refletir na autonomia da bateria. Quer isto dizer que o mesmo Zoe que, à saída do concessionário, equipado com uma bateria de 41 kWh, permitia percorrer sensivelmente 300 quilómetros, passará a não ser capaz de tal distância com uma única carga. Por causa da potência? Não. Porque mais potência implica um uso do acelerador mais desenfreado, disparando o consumo de energia (sem alterações ou reprogramações, a Renault apresenta um consumo homologado pelo ciclo WLTP de 17,2 kWh/100 km).

Artigo relacionado: Os carros elétricos mais potentes do mercado

Além disso, este incremento de potência não será eterno e, à medida que o tempo vai passando, o carro elétrico vai perdendo os cavalos conquistados.

As opiniões divergem quando se trata de carros elétricos, uma vez que os motores são mais simples e todo o sistema é mais facilmente adaptado a todas as circunstâncias.

Será mesmo uma boa ideia?

Nos carros com motores de combustão interna, os especialistas não têm grandes dúvidas. Apesar de poderem resultar em produtos extremamente interessantes, há vários problemas que podem advir da reprogramação com aumento de potência.

Isto porque os fabricantes de veículos adequam cada modelo e versão à potência do motor, dimensionando cada componente para otimizar custos e pesos. Sistema de refrigeração, injeção, transmissão, travões, pneus e componentes mecânicos do bloco, como pistões e bielas, são medidos ao milímetro para aguentar a potência que a marca optou por dar ao automóvel.

Artigo relacionado: Carros elétricos: vantagens e desvantagens

Assim, quando se opta por aumentar a potência, o que vai acontecer é que se irá colocar todos os componentes do automóvel sob um esforço extra que poderá, mais dia menos dia, resultar numa série de problemas: desgaste do motor, problemas com a caixa de velocidades, elementos do motor que simplesmente se partem, sobreaquecimento… Pior: se o fizer dentro da garantia do fabricante, é muito possível que qualquer problema que surja, mesmo que não esteja relacionado com a alteração, não seja assumido. Depois, como já se referiu: haja bolsa para encher o depósito, uma vez que os consumos irão aumentar exponencialmente (e o preço dos combustíveis não está para brincadeiras…).

E nos carros elétricos?

Quando chegamos aos carros elétricos, há várias questões que não se colocam, como o sobreaquecimento. No entanto, a questão da garantia continua a ser válida, e um defeito de fábrica diagnosticado após uma recuperação poderá não ser aceite pelo emblema original.

Mas há outros motivos que poderão levar à reconsideração da reprogramação de um carro elétrico. O principal prende-se com o desafio que os elétricos encerram: mudar a forma como se vê a estrada e a mobilidade. É que, se um carro movido apenas a energia elétrica pode ser muito divertido de conduzir, o mesmo torna-se de facto útil quando se começa a ter um comportamento na estrada menos emocional e mais racional. É nessa altura em que se compreende que é efetivamente possível cumprir as autonomias anunciadas e se deixa de sofrer com aquela ansiedade de ficar apeado no meio do nada sem energia e sem uma tomada à vista.

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