França testa autoestradas que carregam carros elétricos em movimento

A cena parece saída de um filme futurista: um carro elétrico a circular numa autoestrada e a carregar a bateria ao mesmo tempo. Mas esta tecnologia já é uma realidade e está a ser testada em França, com resultados promissores. Trata-se de um sistema de carregamento dinâmico que permite que os veículos recarreguem as suas baterias em movimento, graças a infraestruturas integradas diretamente no asfalto. O objetivo não é apenas aumentar a autonomia dos veículos, mas também permitir baterias mais pequenas, veículos mais leves e uma mobilidade elétrica mais eficiente. A promessa é clara. Menos paragens, menos tempo de espera e menor dependência de postos de carregamento.
Como funciona esta tecnologia de carregamento dinâmico?
A tecnologia em causa baseia-se na transferência de energia por indução magnética. A empresa israelita Electreon, responsável pelo projeto em França, desenvolveu um sistema que consiste na instalação de bobines de transmissão sob a superfície da estrada. Estas bobines geram um campo magnético que é captado por um recetor instalado no veículo elétrico.
À semelhança dos carregadores sem fios para smartphones, esta transmissão ocorre sem contacto direto. Quando o carro passa por cima da zona equipada, a energia é transferida em tempo real para a bateria ou usada diretamente para alimentar o motor elétrico. O sistema pode funcionar tanto para veículos ligeiros como pesados, incluindo autocarros e camiões de transporte.
Segundo a própria Electreon, citada em artigo do Público de 5 de novembro de 2025, a infraestrutura é desenhada para ser modular e pode ser ativada apenas quando um veículo compatível está presente. Isto reduz perdas energéticas e aumenta a segurança do sistema.
França testa a primeira autoestrada elétrica europeia
A iniciativa está a ser testada na região de Versalhes, numa autoestrada onde já foi instalada a primeira faixa de carregamento dinâmico da Europa. Este piloto insere-se no programa de inovação tecnológica francês com foco na mobilidade sustentável. A experiência deverá prolongar-se até 2026 e será fundamental para avaliar o custo-benefício da implementação em larga escala.
De acordo com o portal Auto SAPO, em publicação de 26 de outubro de 2025, os testes estão a ser realizados com frotas de camiões elétricos e veículos de transporte urbano, em colaboração com autoridades regionais e operadores logísticos. A ideia é perceber até que ponto este sistema pode reduzir a necessidade de carregamentos tradicionais, aliviar a pressão sobre a rede elétrica e viabilizar a eletrificação de veículos com maiores exigências energéticas.
Esta tecnologia pode mudar tudo para os carros elétricos
O carregamento dinâmico levanta uma questão central na mobilidade elétrica. Será mesmo necessário depender de postos fixos e longos tempos de carregamento? Se esta tecnologia se confirmar viável em grande escala, o impacto pode ser significativo.
Desde logo, os construtores poderão fabricar carros com baterias mais pequenas, reduzindo o peso e o custo dos veículos. Por outro lado, camiões e autocarros elétricos deixariam de precisar de infraestruturas de carregamento de alta potência nos depósitos, podendo carregar durante o trajeto. Isto pode representar poupanças operacionais relevantes para empresas de transporte e logística.
Outro benefício evidente seria a eliminação da chamada ansiedade de autonomia, uma das maiores barreiras à adoção do carro elétrico por parte de muitos condutores. Com faixas específicas de carregamento ao longo das vias principais, a gestão da energia passaria a ser muito mais fluída e natural.
Mas há obstáculos que não se podem ignorar
Apesar das promessas, este tipo de solução exige investimentos significativos em infraestrutura rodoviária. As faixas de carregamento precisam de ser integradas de forma segura, sem comprometer a integridade do pavimento ou a segurança dos utilizadores.
Além disso, é necessário um nível elevado de padronização tecnológica para que os veículos de diferentes marcas e segmentos consigam comunicar eficazmente com o sistema de carregamento. As primeiras aplicações deverão limitar-se a zonas urbanas, corredores logísticos ou troços de autoestrada muito frequentados por frotas.
A Electreon estima que o custo por quilómetro de estrada equipada seja elevado, embora esteja a descer com o avanço da tecnologia. Ainda assim, a aplicação a nível nacional ou europeu exige um plano coordenado entre Estados, fabricantes e operadores de infraestruturas.
Portugal está preparado para uma autoestrada elétrica?
Por agora, não existem projetos públicos em curso em Portugal com esta tecnologia. No entanto, o país tem vindo a investir na expansão da rede pública de carregamento, com o Mobi.E a liderar essa evolução. Em paralelo, os fundos europeus têm permitido o financiamento de corredores verdes e zonas de baixa emissão em várias cidades.
A eventual implementação de faixas de carregamento dinâmico em Portugal dependeria de testes-piloto locais, da definição de corredores prioritários e de colaborações com empresas tecnológicas e fabricantes automóveis. A título de referência, a própria Comissão Europeia já identificou o carregamento dinâmico como uma das soluções possíveis para a descarbonização do setor rodoviário no âmbito do programa Green Deal.
Nem substitui tudo, nem resolve sozinho, mas pode fazer a diferença
O carregamento dinâmico não elimina a necessidade de outros tipos de carregamento, como os postos rápidos ou domésticos. Em vez disso, complementa essas soluções, especialmente para frotas e utilizadores intensivos. O que está em causa é criar um ecossistema flexível, onde cada situação tenha a melhor resposta tecnológica.
Se a tecnologia se provar eficaz, segura e financeiramente viável, poderá transformar não apenas o modo como carregamos os nossos carros, mas também a forma como concebemos as infraestruturas rodoviárias nos próximos anos.