5 dezembro 2025

Os carros elétricos emitem radiação? Estudo alemão esclarece dúvidas.

Frota de carros elétricos Xiaomi

A transição para a mobilidade elétrica trouxe várias questões técnicas e de saúde pública, entre elas a preocupação com a possível exposição à radiação gerada pelos componentes eletrónicos e motores dos carros elétricos. Afinal, os carros elétricos emitem radiação? Um estudo recente realizado na Alemanha dá uma resposta clara, baseada em dados científicos.

O levantamento foi conduzido pela ADAC, em colaboração com a Universidade RWTH Aachen e o laboratório austríaco Seibersdorf Labor GmbH, a pedido do Gabinete Federal para a Proteção contra Radiações da Alemanha. Foram analisados 11 veículos 100% elétricos, dois híbridos e um modelo com motor de combustão, com mais de 975 mil medições feitas em diferentes cenários de uso real e de laboratório.

As conclusões são tranquilizadoras: os carros elétricos não só não representam risco para a saúde, como em muitos casos apresentam menor atividade eletromagnética do que alguns veículos convencionais.

Campos magnéticos nos veículos: o que foi medido

Os automóveis elétricos, por dependerem de baterias de alta tensão, inversores e motores elétricos, geram campos eletromagnéticos durante o seu funcionamento. Estes campos, embora naturais na operação dos componentes, são muitas vezes confundidos com “radiação perigosa”.

O estudo alemão centrou-se em medir a intensidade dos campos magnéticos em condições reais de condução: arranques, travagens, aceleração, condução constante, e ainda durante os processos de carregamento. Foram também testados diferentes pontos dentro do habitáculo, incluindo posições junto aos pés, ao tronco e à cabeça dos ocupantes.

As medições confirmaram que os valores detetados estavam todos muito abaixo dos limites definidos por organismos internacionais como a ICNIRP (Comissão Internacional de Proteção contra Radiações Não-Ionizantes). Mesmo nos momentos de pico, como aceleração forte ou travagem intensa, os campos mantiveram-se em níveis considerados seguros.

Pontos com maior intensidade eletromagnética

De acordo com os dados publicados, as zonas com maior intensidade de campo eletromagnético registaram-se junto aos pés dos ocupantes, em especial na parte frontal do veículo. Esta área coincide com a presença de cablagens de potência e elementos como inversores e resistências de aquecimento. No entanto, os níveis registados, embora superiores aos das restantes zonas, mantiveram-se sem risco para a saúde.

Curiosamente, um dos elementos com maior emissão de campo eletromagnético foi o sistema de aquecimento dos bancos, independentemente do tipo de motorização. Ou seja, tanto carros elétricos como térmicos apresentaram esse comportamento, o que demonstra que a emissão de campos não está exclusivamente ligada ao facto de o veículo ser elétrico.

Segurança durante o carregamento

Outro ponto analisado com detalhe foi a exposição durante o carregamento das baterias, tanto em corrente alternada (AC) como em corrente contínua (DC). O início do carregamento AC gerou picos ligeiramente superiores, mas que se estabilizaram rapidamente. Já os carregadores rápidos DC, curiosamente, apresentaram níveis inferiores.

Estas conclusões são particularmente relevantes, já que desmistificam a ideia de que carregar um carro elétrico em casa ou num posto rápido possa expor os ocupantes a “radiação perigosa”. Em todos os cenários, os campos magnéticos detetados permaneceram dentro dos limites de segurança regulamentares.

Comparação com veículos de combustão

Para garantir uma comparação justa, o estudo também mediu os níveis de campos magnéticos num veículo com motor térmico. O resultado é que os valores registados nos carros elétricos foram semelhantes ou mesmo inferiores, o que reforça a conclusão de que a presença de baterias ou motores elétricos não implica um aumento da exposição eletromagnética.

Isto acontece porque todos os veículos modernos, mesmo os de combustão, incluem sistemas eletrónicos que geram campos, como alternadores, cablagem de alta tensão, componentes de infotainment ou sistemas de assistência à condução. A exposição eletromagnética é, assim, uma realidade comum a qualquer viatura moderna, e não exclusiva dos elétricos.

O que dizem as normas de saúde pública

Os limites de exposição humana a campos eletromagnéticos são definidos por organismos internacionais como a ICNIRP, baseando-se em décadas de investigação científica. Esses limites foram incorporados na legislação europeia e nas recomendações de organismos como a Organização Mundial da Saúde.

O estudo alemão confirmou que, mesmo em condições extremas de utilização, os carros elétricos permanecem dentro desses limites. Isto significa que não existe evidência de risco para a saúde relacionado com a exposição diária dentro de um automóvel elétrico, mesmo para grupos considerados mais sensíveis, como grávidas, crianças ou pessoas com dispositivos médicos implantáveis.

À procura de um elétrico usado?

Implicações para os condutores portugueses

Em Portugal, onde a adesão à mobilidade elétrica tem vindo a crescer de forma consistente, este tipo de investigação é essencial para esclarecer dúvidas legítimas por parte dos consumidores. A preocupação com a “radiação dos carros elétricos” pode afastar potenciais compradores que não tenham acesso a informação técnica fiável.

O estudo da ADAC vem reforçar a confiança nos veículos elétricos enquanto solução viável e segura. Do ponto de vista da saúde pública, os dados são claros: não há indícios de que a condução ou recarga de um carro elétrico exponha os ocupantes a níveis perigosos de radiação.

Questões ainda em aberto e recomendações futuras

Embora as conclusões sejam claras, os investigadores recomendam que os testes sejam repetidos periodicamente, especialmente à medida que novas plataformas elétricas e tecnologias de carregamento forem sendo introduzidas no mercado.

Também é importante garantir que todos os modelos novos cumprem as diretivas de compatibilidade eletromagnética (EMC). Estas normas asseguram que os componentes do veículo não interferem entre si e que não afetam negativamente a saúde ou o funcionamento de dispositivos médicos, como pacemakers ou sensores auditivos.

A vigilância contínua e a atualização de estudos como este contribuem para manter altos padrões de segurança, tanto no que diz respeito à saúde dos utilizadores como à fiabilidade dos sistemas elétricos.

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