Ainda vale a pena fugir dos elétricos e escolher um carro a combustão?

A crescente aposta na mobilidade elétrica e as metas ambientais da União Europeia estão a mudar a forma como os consumidores pensam a aquisição de automóveis. Com os incentivos aos elétricos a multiplicarem-se e as restrições à circulação de veículos térmicos a aumentarem em vários centros urbanos, muitos condutores questionam-se: ainda faz sentido comprar um carro a gasolina ou a gasóleo?
Apesar da transição energética estar em curso, os veículos térmicos continuam a representar uma fatia significativa das vendas em Portugal. Mas por quanto tempo? E em que contextos continuam a ser uma opção válida?
A evolução do mercado automóvel em Portugal
Segundo dados da Associação Automóvel de Portugal (ACAP), entre janeiro e setembro de 2025, os automóveis a gasolina lideraram as novas matrículas com 38,6%, seguidos pelos diesel com 24,2%. Os elétricos atingiram 21,3% e os híbridos plug-in 11,7%. Estes números mostram que, embora a eletrificação esteja a ganhar força, os motores térmicos continuam a dominar uma parte relevante do mercado.
A explicação reside em vários fatores. Por um lado, os preços de aquisição dos elétricos ainda são mais elevados. Por outro, a infraestrutura de carregamento público continua insuficiente em muitas zonas do país, dificultando o uso diário para quem não tem garagem ou ponto de carregamento privado. Além disso, há ainda alguma resistência cultural e receios relacionados com a autonomia.
Porque continuam a ser opção?
Os carros a gasolina mantêm-se populares sobretudo pelo preço inicial mais acessível e pela simplicidade mecânica. São fáceis de manter, ideais para percursos curtos e adaptam-se bem à circulação urbana. Já os diesel, apesar da quebra nas vendas nos últimos anos, continuam a ser a escolha racional para quem faz muitos quilómetros, seja por motivos profissionais ou deslocações regulares em autoestrada. O consumo mais reduzido e a maior autonomia por depósito ainda pesam na decisão de muitos compradores.
Também há um elemento de conveniência. Em muitas zonas do interior, longe das grandes cidades, a infraestrutura para elétricos é escassa ou inexistente. Nesses casos, a opção por um motor térmico continua a ser a mais prática.
Desvantagens e sinais do fim anunciado
Apesar da sua utilidade em certos contextos, os carros a combustão enfrentam uma pressão crescente. A nível fiscal, o ISV e o IUC penalizam cada vez mais os veículos com maiores emissões. Em termos de mobilidade urbana, várias cidades europeias já restringem a circulação de automóveis a gasóleo mais antigos, e medidas semelhantes estão a ser estudadas em Portugal, com a criação de Zonas de Emissões Reduzidas (ZER).
A par disto, a desvalorização tende a acelerar à medida que os elétricos ganham mercado. Comprar um carro a combustão hoje é, cada vez mais, uma decisão com prazo de validade. A Comissão Europeia prevê o fim da venda de carros novos com motor de combustão a partir de 2035, o que poderá acelerar o abandono dos modelos térmicos na próxima década.
Também os fabricantes estão a reorientar a sua oferta. Marcas como a Volvo, a Ford e a Peugeot já anunciaram datas concretas para o fim da produção de motores a combustão, concentrando-se no desenvolvimento de gamas elétricas e híbridas.
Os elétricos são já uma alternativa viável?
Para muitos condutores, sim. Os veículos elétricos têm hoje autonomias que ultrapassam facilmente os 350 quilómetros, tempos de carregamento cada vez mais curtos e custos operacionais mais baixos. A poupança no abastecimento, associada à isenção de IUC e ao acesso facilitado a zonas restritas, torna-os muito competitivos no custo total de propriedade.
Ainda assim, para quem não tem acesso fácil a pontos de carregamento, vive fora dos grandes centros urbanos ou pretende uma solução mais económica no curto prazo, os veículos térmicos, especialmente no mercado de usados, continuam a ser uma escolha válida.
E em Portugal, faz sentido comprar gasolina ou diesel?
A resposta depende sempre do contexto. Para quem precisa de um carro fiável, acessível e com manutenção simples, um modelo a gasolina pode ser uma excelente opção, especialmente em meio urbano. Já o diesel continua a fazer sentido para quem percorre longas distâncias, tem cargas a transportar ou utiliza o carro de forma intensiva.
No entanto, é cada vez mais importante considerar o horizonte temporal da compra. Se a ideia for manter o carro por vários anos, convém ponderar se ele continuará a ser prático e legal nos próximos cinco a dez anos. O risco de restrições, desvalorização rápida e custos adicionais não deve ser ignorado.
Também importa acompanhar o ritmo da eletrificação da frota nacional, os planos municipais para zonas de emissões reduzidas e o aparecimento de incentivos à compra de elétricos usados, que poderão alterar significativamente o cenário nos próximos dois a três anos.