30 julho 2025

O Ford Capri tenta reinventar a sua história. Mas terá sucesso?

A Ford, depois de revisitar o lendário Mustang num formato SUV 100% elétrico, continua desconstruindo o passado para reinventá-lo no presente. Agora, resgata o emblemático nome Capri — símbolo de sucesso nas décadas de 1970 e 1980 — e transforma-o num SUV totalmente elétrico. Esta reencarnação desperta curiosidade, mas também uma questão crucial: será vantajoso para uma marca reescrever o seu legado, alterando de modo radical o conceito original? E mais importante: estará o novo Capri elétrico à altura do nome que transporta?

O nome Capri evoca uma herança de estilo e desejo que atravessa gerações. O novo Ford Capri surge como uma reinvenção moderna do clássico que, nos anos 70, trouxe ao cidadão europeu o charme e emoção de um coupé americano, adaptado ao contexto europeu em formato compacto. Em 1969, o Capri foi lançado com a ambição de ser um “carro dos sonhos para as massas”: inspirado no Mustang, mas com motores mais pequenos, tração traseira e uma imagem desportiva acessível. Ao longo de quase duas décadas, brilhou como símbolo de liberdade e elegância, oferecendo uma experiência especial mesmo para quem não tinha orçamento para um desportivo puro.

Visualmente, o novo Capri funde elementos nostálgicos com uma linguagem contemporânea. As proporções robustas, ombros vincados e silhueta coupé elevada remetem subtilmente ao espírito rebelde do original. Ao mesmo tempo, os faróis de LED, a grelha fechada e os detalhes minimalistas evidenciam o ADN elétrico moderno, criando um equilíbrio entre o passado simbólico e o futuro tecnológico deste modelo.

No interior, mantém-se a tradição de conjugar estética e funcionalidade. Baseado na arquitetura refinada da Volkswagen, o habitáculo oferece um ambiente moderno e bem construído. O ecrã central flutuante libera um espaço de arrumação oculto, enquanto os comandos se revelam intuitivos. Há lugar para quatro adultos com conforto e uma bagageira generosa de 572 Litros, contrariando a ideia de que um coupé elétrico não pode ser prático.

A colaboração com a Volkswagen representa uma estratégia pragmática e necessária. A Ford, com presença centrada nos EUA, enfrenta desafios na Europa — um mercado exigente em termos de compacidade, eficiência e regulamentação. Unir-se ao Grupo VW permitiu-lhe aceleração tecnológica e competitiva. O novo Capri, tal como o SUV elétrico Explorer, assenta na plataforma MEB da Volkswagen — uma base consolidada no continente e capaz de acomodar os planos europeus da Ford.

O Capri recorre à plataforma MEB utilizada no VW ID.4, ID.5 e Cupra Born, o que reduz custos e evita riscos, fundindo know how da Europa com a visão da Ford. Modelos como o Cupra Born mostram-se dinâmicos e envolventes, oferecendo níveis altos de prazer de condução. O Capri, embora partilhe dimensões e preços com o Explorer, segue uma abordagem estética e comportamental diferente: assume uma silhueta coupé mais fluida e baixa, com suspensão mais firme, promovendo uma condução mais emotiva e desportiva.

A posição de condução é ligeiramente mais baixa e direta, criando uma sensação de agilidade acentuada. Apesar de interior semelhante ao Explorer, o Capri oferece, curiosamente, mais espaço de bagageira — cerca de 100L adicionais. Esta peculiaridade também o torna uma escolha pragmática para viagens em família, unindo estilo e funcionalidade num único veículo.

A gama do Capri apresenta três níveis de equipamento: Style, Select e Premium, combinados com três opções de baterias. A versão Standard, de tração traseira, conta com uma bateria de 52kWh e motor de 170cv, que anuncia autonomia de até 393km (ciclo misto). A variante Autonomia Extendida, com 77kWh e 286cv, eleva a autonomia para 627km. O modelo mais potente, com 340cv e tração integral, monta bateria de 79kWh para autonomia de 592km e acelera de 0 aos 100km/h em cerca de 1,1 segundos menos do que a versão Extended Range.

Quanto aos tempos de carregamento: a versão mais potente suporta até 185kW, enquanto as outras carregam a até 145kW ou 135kW. Apesar das diferenças de potência, o intervalo de carregamento dos 20% aos 80% varia apenas entre 25 e 30 minutos em todas as versões. Em corrente alternada (AC), todos aceitam carregamento até 11kW.

Preços

O Ford Capri arranca nos 47.317€ e sobe até 64.700€, na configuração mais potente com mais equipamento. Em comparação, o Explorer parte dos 44.776€ e chega aos 61.158€ na versão de topo.

Face a rivais como o Cupra Born ou Skoda Enyaq — que partilham plataforma MEB — os preços base são equivalentes. Mas nas versões altas, o Ford apresenta mais potência, embora os modelos europeus se mantenham 10.000 a 15.000?€ mais económicos.

Ao reutilizar nomes emblemáticos como Mustang e Capri em modelos elétricos, a Ford assume um risco estratégico considerável: associa a herança emocional desses modelos a uma tecnologia que ainda está a amadurecer. Se os produtos não corresponderem às expectativas, o impacto na reputação pode ser substancial. Exige-se, portanto, uma execução impecável em cada detalhe, do design à experiência de condução.

Até agora, a ressurreição do Mustang elétrico tem sido recebida positivamente, com sucesso crescente. Se o mesmo se confirmar no caso do Capri, será um sinal de que a Ford conseguiu equilibrar inovação e legado com êxito.