4 março 2026

Aston Martin vai despedir 20% dos trabalhadores após prejuízo de quase 500 milhões de libras

Aston Martin enfrenta prejuízo histórico e anuncia despedimentos

Construtora britânica prevê cortar cerca de 600 postos de trabalho depois de o prejuízo líquido ter aumentado 52%. Tarifas impostas pelos EUA e quebra na procura chinesa agravaram resultados.

A histórica fabricante britânica de automóveis de luxo Aston Martin anunciou nesta quarta-feira que irá reduzir até 20% da sua força de trabalho, o equivalente a cerca de 600 trabalhadores, na sequência de um agravamento significativo dos prejuízos em 2025. A empresa registou um resultado líquido negativo de 493,2 milhões de libras (mais de 566 milhões de euros), um aumento de 52% face ao ano anterior.

A marca, que emprega aproximadamente três mil pessoas, justificou a decisão com o contexto adverso vivido pelo setor automóvel de luxo ao longo do último ano. Entre os principais fatores apontados estão as tarifas de importação impostas pelos Estados Unidos e a persistente fraqueza da procura na China, dois mercados considerados estratégicos para o crescimento da empresa.

“Em 2025, o mercado global de automóveis de luxo enfrentou um dos anos mais turbulentos dos últimos tempos”, afirmou o diretor executivo do grupo, Adrian Hallmark, em comunicado. Segundo o responsável, a procura dos consumidores foi fortemente condicionada pelo aumento das incertezas geopolíticas e pelos desafios macroeconómicos, com destaque para “a introdução de tarifas elevadas tanto nos Estados Unidos como na China”.

A pressão das tarifas norte-americanas

O setor automóvel tem estado entre os mais afetados pela política comercial protecionista adotada pelo Presidente norte-americano, Donald Trump, que tem procurado incentivar o regresso da produção automóvel ao território dos Estados Unidos através da imposição de tarifas adicionais sobre veículos importados.

No caso da Aston Martin, a empresa optou por limitar temporariamente as exportações para o mercado norte-americano nos meses de abril e maio, enquanto aguardava a conclusão de um acordo comercial entre Washington e Londres. Durante esse período, a incerteza quanto ao enquadramento tarifário levou a construtora a reduzir os envios, numa tentativa de mitigar potenciais perdas adicionais.

A situação começou a estabilizar em junho, após a assinatura de um entendimento entre os dois países, que reduziu as tarifas sobre automóveis exportados do Reino Unido de 27,5% para 10%, ainda que com um limite anual de cem mil veículos. A retoma dos embarques permitiu aliviar parte da pressão, mas não foi suficiente para compensar o impacto acumulado ao longo do ano.

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China continua fraca

Além dos Estados Unidos, a China permanece um mercado crucial para as marcas de ultraluxo. No entanto, a Aston Martin reconhece que a procura chinesa “permaneceu extremamente fraca”, em linha com o desempenho de outras construtoras de topo.

Apesar de considerar que o país asiático mantém potencial de crescimento a longo prazo, a empresa admite que o atual contexto é particularmente desafiante. As alterações fiscais sobre veículos de ultraluxo e o abrandamento económico têm condicionado as decisões de compra, afetando diretamente as vendas.

A administração sublinha que as perspetivas para a indústria automóvel continuam marcadas por incerteza, sobretudo devido à possibilidade de novas tarifas adicionais por parte dos EUA, às mudanças nos impostos chineses e à dependência de uma rede global de fornecedores estável — cadeia essa que permanece vulnerável a tensões geopolíticas e constrangimentos logísticos.

Reestruturação para reforçar sustentabilidade

Os cortes agora anunciados inserem-se num plano mais amplo de reestruturação destinado a melhorar a eficiência operacional e reforçar a sustentabilidade financeira da marca. A empresa, que ao longo dos últimos anos tem enfrentado dificuldades recorrentes, pretende ajustar a estrutura de custos à realidade atual do mercado.

Embora não tenham sido detalhadas as áreas específicas mais afetadas, a redução de cerca de 600 postos de trabalho representa uma das maiores reestruturações recentes na história da construtora britânica. A administração garante que procurará conduzir o processo “com responsabilidade e respeito pelos colaboradores”.

Analistas do setor consideram que a decisão, embora dolorosa, poderá ser vista como necessária para protege r a viabilidade futura da empresa, sobretudo num contexto de elevada volatilidade e concorrência intensa no segmento de luxo.

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